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12 Anos Escravo (12 Years a Slave, 2013)

É óptimo, estranho e raro ver tantos filmes de tanta qualidade em exibição. O Medeia Monumental, por exemplo, está neste momento a passar A Propósito de Llewyn Davis, O Passado, A Vida de Adèle e 12 Anos Escravo – só grandes filmes.

O novo de Steve McQueen retrata a história verídica de Soloman Northup (Chiwetel Ejiofor), um nova-iorquino negro do início do século XIX, homem livre que acaba por ser raptado e vendido como escravo. Não existem rodeios – como espectadores, somos convidados a participar numa viagem no tempo na qual gostaríamos de não acreditar. Para além da história ser, por si só, incrível, o facto deste ser um homem livre a quem a força das circunstâncias leva à escravatura dá-lhe um impacto diferente – nem que seja pela redobrada empatia que podemos ter pela personagem. Northup terá o desafio maior de manter não só a sua integridade física mas também a sua sanidade. Este segundo aspecto é particularmente relevante tendo em conta o modo como todo o ambiente que envolve Northup – o dos escravos e respectivos donos – se divide entre a violência, o desespero ou a submissão.

A crueldade da situação é personificada no seu extremo através do actor-fétiche de McQueen, o germano-irlandês Michael Fassbender. Como o “dono” de Northup, Fassbender desempenha um papel memorável ao representar toda a loucura que vem com o poder, espalhando uma aura de medo e paranoia sobre todos os escravos, mesmo quando não presente.

Mas é Ejiofor que merece o maior destaque. A intensidade e exigência do seu papel é tão grande, que o nível de detalhe necessário é apenas comparável ao perfeccionismo visual de Steve McQueen. Existem milhares de “fotografias” neste filme – momentos em que o filme poderia parar e cujo frame podia ser colado em exibição num museu, tal é o grau de beleza (ou força) estética.

Se este ano o tema da escravatura já tinha surgido no quasi-cartoonesco Django Libertado, 12 Anos Escravo é o seu irmão mais velho. Sem qualquer alívio cómico, é um filme cru e gráfico, mas não no sentido que Tarantino dá à palavra. Se em Django o espectador assiste à fantasia do negro a vingar-se das injustiças da escravatura (uma espécie de catarse para todos), neste caso o máximo que desejamos é o limite possível do real: a sobrevivência e libertação de Solomon Northup. É esta crueza desesperante que dá ao filme o seu poder, obrigando-nos constantemente a relembrar que tudo o que vemos não tem mais de 150 anos.

É inspirador quando um realizador consegue criar três filmes tão diferentes e no entanto tão consistentemente poderosos. Se Vergonha (2011) tinha já sido um dos filmes mais fortes dos últimos tempos, 12 Anos Escravos apenas confirma que McQueen é um verdadeiro artista, no melhor sentido da palavra: experimentando e reinventando-se, pretende sempre um exercício de uma intensidade intelectual e emocional tão exigente quando a sua dedicação. Esta dedicação tem aquela recompensa máxima que é a marca do verdadeiro artista – a impossibilidade de nos deixar indiferentes.

  • Pedro Almeida

    Excelente crítica.
    Apenas acrescentaria uma coisa: o merecido destaque ao papel de Lupita Nyong’o (Patsey) que com a sua prestação incrível me fez estremecer com cada chicotada que levou. Isto porque a gestão das doses de violência ao longo do filme foi muito bem conseguida – leia-se, de forma não gratuita – o que permitiu que estes momentos tivessem um impacto tão profundo que nenhum “saw” ou “hostel” poderia sequer almejar atingir.
    Gostei muito.

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