nymphomaniac

Ninfomaníaca – Parte I (Nymphomaniac: Vol. I, 2013)

nin·fo·ma·ni·a  (grego númfê, -ês, esposa, ninfa + -mania)

cp. fr. nynphomanie (1732); psicopatologia, desejo sexual anormalmente forte nas mulheres.

A definição de Joe (Charlotte Gainsbourg): “para mim, ninfomania é insensibilidade”. E se esta nos quer convencer da sua falta de sensibilidade para com os outros, não deixa de ser também um desencontro consigo mesma. Afinal, a regra fundamental do vício é nunca se dar por satisfeito.

Encontrada inconsciente por Seligman (Stellan Skarsgård) numa rua abandonada, Joe é levada para a casa deste. Ao recompor-se, diz que para explicar o que aconteceu terá de contar toda a sua história. Esta, já adivinharam, passa por todo um conjunto de experiências sexuais (e não eróticas) às quais somos apresentados em sucessivos flashbacks. Um dos primeiros diálogos de Joe: “a culpa é minha. Sou um ser humano mau”. Querendo livrar-se da sua virgindade, a sua iniciação sexual resulta de um pedido directo e desapaixonado. É cruamente penetrada “3+5” vezes, como diz. Faz competições com a amiga “B” para ver quem consegue seduzir mais homens. Mais tarde, chega a um número tão grande de amantes que os passa a designar por letras, para facilitar.

Com menos elementos psicadélicos e sobrenaturais, como em Anticristo e Melancolia, este filme aposta na crueza pornográfica adornada de sofisticação narrativa e pormenores de produção. Se alguma vez foi possível acusar o realizador de provocação pelo choque, Ninfomaníaca não escapará a essa regra. Crianças, não se iludam – aquilo são mesmo cenas de sexo, executadas na maioria das vezes por duplos da industria pornográfica.

Talvez o aspecto mais distintivo deste filme, em comparação com os anteriores do realizador, é a sensação pontual, mas presente, de aspectos cómicos. Isto parece impensável para a típica atitude fundo-do-poço-existencial de Von Trier, mas certos exageros no filme soam a caricaturas. Exemplo: as constantes comparações de Seligman entre a pesca e o comportamento ninfomaníaco de Joe resultam numa lição de etologia completamente forçada, (geralmente) no bom sentido.

Lars Von Trier é um caso muito raro no cinema internacional. Artista blasfemo, avant-garde e experimental, sempre acompanhado de temas negros e perturbadores, goza hoje de uma fama bizarra para alguém com o seu repertório bizarro. Que Von Trier sabe filmar já o sabíamos – basta rever a (brilhante) cena de abertura de Anticristo, talvez uma das cenas mais eroticamente belas da história do cinema. Para depressão, neurose e desespero também confiamos:  não esqueço uma sala de cinema muda, enquanto passavam os créditos finais de Melancolia, pessoas à minha volta choravam ou permaneciam inertes e inexpressivas.

Neste caso, tanto era o material ninfomaníaco que teve de ser dividido em duas partes, ou melhor, dois filmes, que irão estrear separadamente. Por agora, só podemos falar do primeiro, que com todos os seus exageros e estranhezas acaba por ter uma identidade própria. Há que salientar talvez o mais importante (artisticamente) – mais ninguém poderia ter feito este filme. Só por aí, há que defendê-lo.

Nota: Ninfomaníaca estreia dia 16 nos cinemas Portugueses.

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