Prelude-to-a-Wholesome-Evening

Ninfomaníaca – Vol. 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2013)

Na última crítica, referente ao primeiro volume desta saga parafílica, referimos como o realizador fundo-do-poço-existencial recorre “a menos elementos psicadélicos e sobrenaturais, como em Anticristo e Melancolia”. Acho que o nosso dinamarquês avant-garde preferido nos deve ter ouvido, já que nos primeiros minutos deste Volume 2 somos presenteados com nada mais do que uma descrição alucinogénica do primeiro (e último) orgasmo de Joe – que inclui levitação estilo out-of-body experience, música sacra e alucinações com referências religiosas pouco ortodoxas. Ganhaste, Lars.

De qualquer modo, nesta segunda parte do filme Seligman continua a ouvir pacientemente as histórias de Joe, comentando ser a melhor pessoa para o fazer devido ao facto de se considerar assexual. Entretanto vai interrompendo o discurso da sua hóspede com mais divagações um tanto forçadas, que vão da história da Igreja ao alpinismo em tempo recorde.

Nas (novas) memórias que Joe vai revelando, fica a sensação de Lars Von Trier estar constantemente a tentar subir a parada. A personagem sente-se insatisfeita sexualmente, claro, e procura novas formas de se estimular, do sexo em grupo ao masoquismo. “K” (Jamie Bell) é o sádico de serviço que nos irá proporcionar cenas altamente gráficas, da chapada à chibatada. Cada vez mais fica legítima a questão: isto é arte altamente profunda e conceptual ou só um guilty pleasure mascarado disso mesmo? Não há nada como um bom sadomasoquismo para nos deixar altamente ambivalentes e desconfortáveis.

A meio do filme existe uma referência directa à primeira cena de Anticristo (“aquela”que já elogiámos), o que acaba por ser um dos melhores momentos deste Volume 2, nem que seja pela surpresa agradável.

“L” (Willem Dafoe) acaba por desempenhar um papel pequeno, o que é uma pena já que nem todos os dias nos cruzamos com um actor tão bom (o mesmo tinha acontecido com Uma Thurman no Volume 1). Ao longo deste filme fomos conhecendo muitas personagens do mais moralmente ambíguo possível, mas “L” acaba por desempenhar o arquétipo máximo do filho da puta – manipulador, cínico e com uma constante calma calculista. Através dele, Joe entra no mundo do crime e, mais tarde, conhecerá “P” (Mia Goth), o que levará ao inevitável desfecho da história.

O filme peca pelo pior que pode acontecer a uma sequela (embora tecnicamente isto seja uma segunda metade, tudo bem): não adicionar nada de novo, apenas entretém. Sabemos o que acontece a Joe, mas a personagem em si não evolui substancialmente, não existem grandes momentos de produção (excepto talvez a referência a Anticristo), existem algumas gafes em termos de argumento e coerência narrativa, e o final parece um típico twist que Von Trier nos prega para aumentar à confusão emocional. Quem viu o Volume 1 sentir-se-á na tentação de ver o seu desfecho. Faz sentido que assim o seja – apesar de ser uma pena investir num filme com o total de quatro horas e pouco quando este facilmente poderia ser recontado numas singelas três horas. Ou duas, vá.

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