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O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet, 1957)

A melhor maneira de um realizador se tornar relevante é, na altura da conceção da sua obra, pensar “que se lixem os críticos”. Atenção esta não será a regra do sucesso, no entanto, o sucesso é efémero, enquanto a obra de arte é eterna. É nesse circuito que a filmografia de Ingmar Bergman se insere: “Que se lixem os críticos” (ele deve ter pensado pior), “Que se lixe a narrativa bonitinha, os personagens com nomes, a direção certa e o final a pedido. Ponham as conceções pela pia a baixo e concebam o futuro, fazendo arte no presente.

Em Sétimo Selo temos a noção que estamos perante arte, perante algo maior, que ultrapassa a duração de 90 minutos do filme. À medida que revemos a obra e que deixamos passar o tempo, vamos percebendo da relevância e da pertinência da película. Chamem-lhe new age, dêem-lhe rótulos. Obviamente ele foi beber a outros realizadores – como por exemplo Godard – afinal de contas somos todos plagiantes inconscientes e procuramos colagens e recortes. O recorte deste senhor aqui consegue desconstruir uma religião e várias crenças.

É certo que a banda sonora típica da época e os incomuns diálogos podem afugentar alguns, todavia, os que se arriscarem vão sentir que valeu a pena.

Sétimo Selo – passado na Suécia medieval durante a peste negra – inicia-se com a famosa cena em que um cavaleiro joga xadrez com a própria morte. O seu objetivo é ganhar tempo, até que deus se manifeste, até que ele possa perceber o sentido da vida e o que se passará a seguir. A morte fecha-se em quatro copas, por isso, só lhe resta tentar adiar uma inevitabilidade, esperando que o mundo, de repente, volte a fazer sentido.

Aqui vemos uma dimensão cínica e dura da religião: a fuga a uma realidade inevitável. A anestesia mundana que nos assola a todos, até à hora em que contemplamos a morte de frente (o que no filme acontece literalmente). Todos querem antecipar a morte, todos querem respostas para poderem sossegar o espírito antes do fim. Infelizmente, tal não acontece.

Apesar de tudo, não se pode considerar Sétimo Selo uma obra negativa e negra. Antes, como aliás nos é apresentado o filme, é uma obra pintada a preto e branco, com os cinzentos a pairarem. A maioria das personagens situa-se nos cinzentos: quer acreditar em algo maior, para poder aceitar o fim mas, na altura, apercebem-se que ainda é cedo e procuram fugir do check mate da morte.

Destaque para a última cena, belíssima em todos os sentidos, uma ambivalência entre a luz e a escuridão, sem recurso ao final feliz pré-construído e fast-foodiano.

Para além disso, há que realçar a genial interpretação de, um dos atores mais subvalorizados de Hollywood (é incrível como nunca ganhou um Oscar), Max Von Sydow. Ele consegue ser o prolongamento do pensamento de Ingmar Bergan, uma espécie de alter-ego do realizador, passando para a obra todas as angústias de um cavaleiro que vislumbra o fim.

Posta a dimensão filosófica de lado, há que falar do primor técnico da realização. Ingmar consegue criar planos contemplativos, com sucessivos close-ups a acompanhar as personagens, sempre com um dinamismo que vai contra a ideia que este tipo de cinema é aborrecido. Aliás, a única forma de alguém se aborrecer, é se sentir falta da tremedeira que existe na maioria dos filmes atuais, as imagens mal focadas, a fotografia desleixada. Aqui, por outro lado, tudo é pensado e trabalhado ao pormenor, sendo o resultado uma anarquia contemplativa de um rigor técnico primordial.

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