HER

Uma História de Amor (Her, 2013)

Quando Isaac Asimov escreveu True Love – já lá vão 50 anos – previa, para além da inteligência artificial, colónias na lua, uma vida humana triste, com seres humanos alimentados por uma espécie de cápsulas. Certo é que, na maioria das previsões, ficou a meio caminho. Talvez tenhamos de esperar mais 50 anos para as suas profecias se cumprirem. A verdade é que esse hiper-realismo Americano, escrito por um russo, é bem espelhado em Uma História de Amor: uma espécie de ficção científica que funciona como profecia, sem procurar julgar.

O que se Observa é que a ideia megalómana de criar artificialmente uma consciência através de uma série de programações aritméticas, já não será assim tão hiper-realista, já não será tão inverosímil, como – sem que haja (muita) malícia nesta comparação – os filmes do Peter Jackson.

Em Uma história de amor, acompanhamos Theodore (Joaquin Phoenix), alguém que após ter sofrido um desgosto amoroso, encontra conforto na voz (muito sexy) de um sistema operativo, Samantha (Scarlett Johansson), com a capacidade de pensar, sentir e amar. Falando na Ms. Johansson, é incrível como usando somente a voz ela consegue ser sexy, doce e incrivelmente genuína – uma das suas melhores interpretações de sempre (por mais irónico que isso possa parecer).

Já Joaquin Phoenix tem uma performance muito sólida, desempenhando um homem solitário, que se isola do mundo e encontra o amor nos “braços” de quem não o julga, ou crítica: o seu sistema operativo.

Como secundária, talvez a única com alguma relevância, há que destacar Amy Adams – que parece estar na mó de cima em Hollywood. Visualmente menos apelativa do que em Golpada Americana – aqui, não tinha direito aquela variedade de vestidos vintage – Amy consegue ganhar preponderância como a melhor, talvez única, amiga de Theodore. Mais para o final, ela até ganha uma história própria, em que a ficamos a perceber melhor.

A questão é mesmo essa, nós não sabemos muito bem de onde vêm estes personagens – com a exceção de Samantha (que vem do supermercado) e do Theodore. Todo o restante elenco é mera figuração, o que acaba por ser compreensível, pois, nestas duas horas, o que interessa saber não é para onde é que os personagens vão, mas para onde é que a sociedade se dirige.

Veredito: Esta obra acaba por ser uma viagem contemplativa para a progressiva alienação das palavras e a normalização do que não é normal, do que é artificial, tornar o hiper-realismo realista. Spike Jonze (realiza e assina o argumento) traz-nos a vertente voyeur, visível no modo como ele filma cada cena – tornando-nos quase mirones dentro da ação – e na forma como ele guia a história. Talvez se acabe por alongar um bocado, e criar um final algo óbvio, que aparenta julgar e dar algumas respostas, quando o tom até ali tinha sido outro. Apesar disso, esta obra é uma das mais fortes da temporada e se não fossem os filmes 12 anos escravos e Gravidade, teria bastantes hipóteses de ganhar um Óscar.

 

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