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Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria – Monstra 2014

Há 13 anos atrás, quando Luiz Bolognesi estava envolvido na produção de Bicho de Sete Cabeças (2001), indagou-se acerca do que gostaria de fazer no futuro. A resposta – uma mistura entre animação e a história do Brasil – veio em forma da sua mais recente criação, Uma História de Amor e Fúria, lançada em 2013 e vencedora do prémio de melhor longa-metragem do festival Annecy Animated International.

Inserido na programação do Festival Monstra 2014, como participante da competição de longas, Uma História de Amor e Fúria apresenta-se como a mais recente incursão no mundo da animação por parte do realizador brasileiro Luiz Bolognesi.

É pertinente introduzir Friedrich Nietzsche para analisar toda a trama, especialmente através dos conceitos de eterno retorno e de amor-fati do filósofo alemão do século XIX. Para os mais distraídos, o Eterno Retorno (Ewige Wiederkunft) prende-se com a repetição eterna dos fatos devido à alternância infinita da realidade. A sempre relevante parábola do demónio – presente no tomo Die fröhliche Wissenschaft lançava a ideia de uma vida repetidamente infinita, mas que somente poderia ser abarcada prazerosamente através do amor-fati – o amor ao destino que Nietzche refere no famigerado Ecce Homo.

Deste modo conseguimos, com bastante facilidade, definir o personagem central de toda a longa: o Herói Imortal (com voz de Selton Mello). Este é retratado em quatro fases marcantes da história do Brasil – a colonização Portuguesa, a escravidão, o regime militar e num futuro distópico – nas quais a repetição é marcada pelas temáticas da procura de liberdade e de perseguição de um eterno amor – Janaína (Camila Pitanga). Nos longos 600 anos que o protagonista vive e volta a reviver, existe uma eterna repetição de uma representação de um Brasil oprimido, silenciado e injustiçado, paralela à procura de Janaína ao longo dos tempos. Somente o amor-fati de uma luta contra a opressão é capaz de libertar o protagonista das maleitas de um Eterno Retorno.

Assim, quando o herói morre, renasce em forma de pássaro – qual Fénix – e voa para uma época seguinte, recomeçando uma história com um tema central semelhante. Este facto torna o ritmo do filme um pouco lento, e a contínua ideia de repetição torna-o, curiosamente, repetitivo. Para além deste fator, o romance integrado na história perde um pouco o seu valor, tornando-se mesmo algo artificial no decorrer da ação.

No entanto, é de notar que a longa é totalmente feita à mão, e que a estética da mesma se destaca pela sua qualidade. O trabalho de vozes tem também qualidade, apesar do discurso moralista e da carga algo épica dos diálogos deixarem um pouco a desejar.

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