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Bates Motel (2013 – a decorrer)

Quem gosta de Hitchcock… Não, não. Isto não é a forma ideal de expor o assunto. A verdadeira questão é: haverá alguém que não goste de Hitchcock?

Sociável por natureza, o ser humano adora uma intriga, pela-se por um cochicho ou mesmo o mais leve indício de uma conspiração. E Alfred Hitchcock é o rei imortal das conspirações! Figura incontornável na imposição do thriller como favorito do público, foi pai de títulos como The Lodger, Blackmail, Rope, Rear Window, Alfred Hitchcock Presents, e claro Pshyco. Em comum têm todos, além daquela silhueta ladina e inconfundível, o génio criminoso e fantasioso, personagens aparentemente normais envolvidas em teorias e cenários sombrios, por vezes um tanto macabros, em perfeita harmonia com uma inteligência, peculiaridade e um humor subtil mas cativante.

A série Bates Motel, de Anthony Cipriano, podia ser uma homenagem não só ao famosíssimo Psycho – uma prequela contemporânea do filme e um retrato da adolescência de Norman Bates, a relação obscura e complexa com a mãe, Norma, e o passado conturbado de que tão desesperadamente procuram fugir – como também a todo o universo Hitchcock.

Podia… E, de certa forma, até é.

As personagens são tão sombrias quanto peculiares – basta olhar para a ingénua e franca Emma (Olivia Cooke) com a sua garrafa de oxigénio sobre rodas; para a intrincada Miss Watson (Keegan Tracy) que tanto tem de simpatia e afeção como de mistério e sedução; ou para a transformação repentina de menina doce e popular para rebelde transtornada e instável por que passa Bradley (Nicola Peltz), isto sem contar com a família Bates e a sua relação disfuncional e repleta de secretismo – cada uma delas apta para integrar qualquer um dos filmes do britânico.

A história não se prende apenas e exclusivamente a um mistério, havendo toda uma série de questões e segredos intrigantes em cada quarto do enorme casarão dos Bates e em cada esquina da pequena cidade que é agora o seu lar. Há o passado por desvendar de Norma, o enredo por trás da sua recém-viuvez, a relação conturbada com o filho mais velho Dylan, a condição preocupante e perigosa de Norman, o negócio ilegal que impulsiona toda economia da pequena cidade, a morte não-tão-acidental do pai de Bradley, e todos os restantes cadáveres que surgem como erva daninha em terreno baldio. Cada novo episódio é uma injeção de energia, mantém-nos atentos aos detalhes, desconfiados de cada personagem e dos motivos e interesses que apresentam.

Além disso, Freddie Highmore e Vera Farmiga, mais do que acostumados a thrillers, são o ‘casal’ perfeito para recriar e aprofundar esta relação mãe/filho que tanto tem de ternura como de doença. Ambos exalam uma empatia anormal (irónico que os dois se chamem Norma/n) que nos deixa sem saber exatamente onde reside a maldade, qual deles a fruta podre que contamina o cesto, quem influencia e apoquenta quem. Talvez porque não seja nenhum deles a fazê-lo; talvez tanto mãe como filho (e arrisco colocar as restantes personagens na mesma fruteira) tenham o seu quê de pecaminoso, de perturbador… Talvez haja em todos nós um lado secreto, uma face negra e oculta, uma pequena mancha de bolor que, dadas as circunstâncias mais favoráveis, pode ou não crescer e cobrir a peça de fruta por inteiro.

É claro que a estranha semelhança entre Freddie Highmore e Anthony Perkins (o Norman Bates de Psycho) já era motivo suficiente para ver a série. Mas o que cativa verdadeiramente é a onda de mistério, com novas conspirações a surgir antes mesmo de as antigas estarem resolvidas, sem nunca diminuírem em intensidade e complexidade, e o arrepio na espinha que permanece mesmo com a segunda temporada perto do fim. E sobretudo a noção de que nada é o que parece, em tudo e todos há o potencial para um crime porque, nas palavras do próprio Hitchcock, “everyone enjoys a nice murder, provided he is not the victim”.

Em cima o "Norman" de Anthony Perkins e em baixo a sua versão de Freddie Highmore

Em cima o “Norman” de Anthony Perkins e em baixo a sua versão de Freddie Highmore

Bates Motel foi recentemente renovada por mais uma temporada (a 3ª).

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