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Borgman (2013)

Quando inicialmente vemos Borgman (Jan Bijvoet) ser incomodado no seu elaborado abrigo subterrâneo, estamos longe de imaginar o que se avizinha. Alguém que aparenta ser um mero sem abrigo, transforma-se progressivamente num ser manipulador e sofisticado.

Aliás, a palavra “sofisticação” é o que melhor poderá descrever esta obra de Alex van Warmerdam, que antes de chegar a Portugal, já teve oportunidade de fazer as delícias dos críticos em vários festivais (por exemplo, esteve nomeado para a palma de ouro, em Cannes).

Num estilo home-invasion, semelhante ao da obra Brincadeiras Perigosas de Michael Haneke – apresenta também uma família de classe média – mas, ao contrário deste, o macabro só vai sendo revelado mais para o final e, ao invés, consegue fazer-nos odiar mais alguns elementos da família “invadida”, em especial o patriarca Richard (Jeroen Perceval), do que o invasor e os seus cúmplices.

A forma como Borgman entra na vida daquela família nasce do sentimento de culpa que Marina (Hadewych Minis) sente, ao ver o seu marido espancar o sem-abrigo, que apenas desejava tomar banho. À medida que a narrativa evolui, Borgman vai-se aproximando de toda a família, de forma bem calculada.

Curioso verificar que o realizador Alex van Warmerdam tem na personagem Richard uma espécie de alegoria para o que a classe média alta representa, na sua opinião. O conceito do marido opressor, profundamente racista, burguesista e todos os adjetivos (pejorativos) terminados em “ista”, são primorosamente elaborados nesta personagem, talvez até de forma excessivamente estereotipada.

Depois de uma fase inicial menos reveladora da perversidade que se iria avizinhar, o filme volta a aproximar-se da obra de Haneke, entrando finalmente no macabro puro e duro, com sequências de deixar qualquer pessoa a duvidar de si própria, por estar a gostar de ver uma família ser maltratada. Aqui, distancia-se da obra de Haneke, mais maniqueísta, ao passo que este Borgman entra na área dos cinzentos, da dúvida moral.

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