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Coro dos Amantes – de Tiago Guedes (com Entrevista) – Indielisboa 2014

Tiago Guedes é já um nome seguro do cinema Português. Habituado ao formato de longas-metragens, regressa neste Indie às origens, com a curta: Coro dos Amantes. E que bom que foi vê-lo regressar.

Numa obra baseada na peça homónima, escrita por Tiago Rodrigues, acompanhamos um casal – soberbamente interpretado por Gonçalo Waddington e Isabel Abreu – durante uma crise respiratória, que atira a personagem de Isabel para o hospital, nas intermitências da morte.

A curta-metragem, à semelhança da peça, é dividida em 3 partes (chamadas de canções). Estas três canções correspondem a três fases distintas do casal. A partir desta premissa, mérito de Tiago Rodrigues, entra a mestria e subsequente mérito de Tiago Guedes. Tiago (o Guedes), pegando no texto da peça – que se foca nos relatos dos acontecimentos, sob o ponto de vista individual dos dois membros do casal, convergindo e divergindo à medida que os seus pensamentos são revelados em simultâneo – consegue biparti-lo também em termos de imagem. Filmado em camera dupla, consegue transmitir a angústia, o medo, a ansiedade e o sentimento claustrofóbico, colocando lado a lado e isoladamente os dois membros do casal. À medida que a canção muda, vamos também percebendo – mais uma vez graças à imagem e ao texto – a solidão que ambos sentem individualmente e de forma distinta. Essa dicotomia de relatos consegue ser integrada em imagens, sem que haja sobreposição, ou redundância diálogo/imagem. Uma espécie de “pague uma história, leve duas”.

Aqui há que redistribuir os créditos a quem os merece: os louvores do texto irão direitinhos para Tiago Rodrigues, se bem que a peça de teatro é obviamente mais extensa que a curta-metragem. Depois, há que ressalvar a montagem e a filmagem da obra, e neste caso teremos de dar os parabéns a Tiago Guedes. Para fugir a esta monopolização de Tiagos, importa destacar os atores: Gonçalo e Isabel conseguem trazer à baila todas as angústias incapacitantes e arrependimentos de uma vida em casal, comunicando-as através de pensamento, que por vezes é impossível de calar.

Aqui Tiago Guedes, o realizador que gentilmente respondeu às perguntas do "público".

Aqui Tiago Guedes, o realizador que gentilmente respondeu às perguntas do “público”.

Entrevista a Tiago Guedes

Eram já 20h30 quando o pequeno auditório da Cultugest foi paradoxalmente demasiado gigante para as (poucas) pessoas que ficaram para a conversa informal com Tiago Guedes. A conversa foi tão informal que no auditório sobraram apenas os amigos do realizador, ele próprio, e quem vos escreve. O que era suposto ser uma conversa, tornou-se quase uma díade entre um dos diretores do Indielisboa – Miguel Valverde – e Tiago, com espaço para questões do público (portanto eu). Se por um lado se pode considerar sorte ter um realizador “só para nós”, por outro soa, cheira e sabe a estupidez, perder a oportunidade de falar, ou pelo menos ouvir, o que este tinha para dizer. Em vez disso, o pouco público bateu em debandada, quiçá correndo para não perder a telenovela. Bem, pelo menos houve tempo para algumas questões:

– Tiago, como conseguiu e procurou transpor a peça escrita para o filme, captando toda a complexidade da mesma, e dividindo-a por canções?

Tiago Guedes (TG): Bem, a divisão por canções já vinha descrita no texto da peça, eu limitei-me a passar para a curta. Em termos de complexidade e de filmagem, eu – que tinha há pouco tempo experimentado filmar em camera dupla e gostei – decidi aplicar essa técnica, para tentar transpor a complexidade do texto para as imagens. Captando o mesmo momento, em dois planos em simultâneo.

– Como surgiu a ideia de criar esta obra?

TG: A peça do Tiago Rodrigues foi me dada a ler e, no momento em que a estava a ler, surgiram logo planos iniciais para o filme. Tive logo vontade de criar qualquer coisa. Um relato individual, dentro de um casal. Falar também da sua solidão.

– E depois como a pôs em prática?

TG: Primeiro gravei os offs todos na integra e depois fui juntando com as imagens. Este foi o processo mais longo, pois tentei que as imagens não fossem redundantes com o texto. Nesse sentido, a montagem em si foi o que demorou mais a fazer no filme.

– E em termos de elenco. O Gonçalo e a Isabel surgiram logo? Houve algum tipo de preparação.

TG: Eles foram logo primeiras escolhas, não houve dúvidas. No que toca a preparação, sendo a peça baseada em factos verídicos, tentamos imediatamente falar com a senhora que sofreu esta experiência, tentando perceber o que é que ela passou. Tentando sempre fugir ao exagero, que seria fácil de seguir.

– Tiago, porquê voltar às curtas?

TG: Eu não penso em filmes em forma de curtas, ou longas. Filmes são filmes e eu não tenho preconceitos em termos de duração. Por exemplo neste caso seria impossível fazer uma longa, pois só resultaria neste espaço de tempo. Quando faço um filme não me preocupa se vais sair uma curta, ou uma longa, preocupo-me é com a obra em si.

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