Gloria (2013)

É preciso coragem. É preciso coragem para reavaliar a vida aos cinquenta anos e encontrar uma forma de viver diferente, depois de todos os sonhos se terem estilhaçado. O divórcio é, hoje em dia, tão normal quanto o casamento. Se nos dermos ao luxo de sonhar com o amor eterno e a família para sempre unida, somos os génios da ingenuidade. É preciso coragem. É preciso coragem para, acima de tudo, aceitar a efemeridade das coisas.

 Apaixonamo-nos por Gloria porque Gloria é o símbolo desta coragem. E é um símbolo muito genuíno: uma mulher sensível e aventureira que deseja viver intensamente e com muito sentido de humor. Doze anos depois do seu divórcio, Gloria (Paulina Garcia) não procura esconder a sua solidão mas também não procura render-se. Com os seus grandes óculos vintage e uma maquilhagem muito subtil, dirige-se às discotecas e clubes noturnos de Santiago do Chile em busca de experiências e sensações interessantes que a façam sentir viva. Sim, Gloria não tem medo de querer sentir-se viva. Numa dessas noites, embebidas em ritmos latinos, cruza-se com Rodolfo, um homem ligeiramente mais velho e aparentemente divorciado, com quem se envolve romanticamente. Começa então a dança arrítmica das expetativas, dos sonhos e dos medos.

 Sebastián Lelio faz-nos acompanhar Gloria de uma maneira muito realista e completa, tendo o mérito de não cair nos clichés do costume sempre que o personagem principal é uma mulher: drama, histeria e tensão pré-menstrual. A verdade é que, também graças à excelente prestação de Paulina Garcia, que captou e representou a essência de Gloria na perfeição, pudemos assistir aos anseios e preocupações de uma mulher divorciada de cinquenta anos, através de uma câmara muito limpa e pertinente: Lelio escolheu mostrar-nos o que de fato importa. Captou as inseguranças e fraquezas de Gloria com a mesma intensidade que os seus momentos de liberdade e êxtase. E falando em êxtase, o realizador chileno surpreende-nos trazendo ao grande ecrã cenas de sexo explícitas entre  Gloria e Rodolfo, cuja sensualidade, aos 50 ou 60 anos, não é nada daquilo a que estamos habituados a ver no cinema. Essa ousadia conferiu automaticamente ao filme um carácter muitíssimo humano e realista.

 Ao longo do filme, vamos vendo Gloria sofrer vários anseios e pensamos em todas as Glorias que há no mundo, todas as mulheres divorciadas que vão lutando contra a solidão e procurando experiências dignas e que valham a pena, muitas vezes sofrendo grandes desilusões. Mas “a liberdade é o que fazemos com aquilo que nos foi feito a nós”, diz-nos Sartre, o estrábico existencialista mais conhecido do mundo – e talvez o único. Ora, Gloria parece ser muito esperta na maneira como exerce a sua liberdade. Apesar de todos os acontecimentos desagradáveis que é obrigada a enfrentar, Gloria surpreende-nos não só por nunca se vitimizar, como por reagir de forma consciente, energética e com um incrível sentido de humor – todos gostámos de ver Rodolfo ser alvo de um tiroteio de bolinhas de Paintball.

 No fim, a escolha entre viver e desistir da vida acontece de uma forma muito interessante e relativamente subtil. Num centro comercial, Gloria depara-se com uma marioneta de um esqueleto a dançar – uma referência a The Skeleton Dance, realizado por Walt Disney em 1929 – e, encarando-o durante alguns segundos, deixa-lhe umas moedas em tom de desdém e indiferença. O que Gloria nos afirma, nesse momento, é que sabe que há beleza em estar vivo, mesmo quando nem tudo corre como desejávamos. E essa beleza aparece-lhe quase como uma prova, horas mais tarde, na forma de um pavão branco que se cruza em silêncio no seu caminho. Uma visão que a deixa comovida e, ao mesmo tempo, mais tranquila. Por isso não nos preocupamos quando, no final, Gloria recusa dançar com um homem. Sabemos que não é por medo, sabemos que não é por ressentimento. Sabemos que Gloria é uma mulher em pleno uso da sua liberdade.

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