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Grand Budapest Hotel (The Grand Budapest Hotel, 2014)

 O filme mais ambicioso de Wes Anderson até à data tem todos os ingredientes que o tornaram famoso – é divertido, filmado e produzido virtuosamente, e o elenco é ridiculamente bom. Anderson parece completamente empenhado em aperfeiçoar a sua fórmula até ao limite, e nesse aspecto parece difícil superar o Grand Budapest Hotel.

Quem já leu ou viu alguma coisa sobre este filme terá notado que Wes Anderson goza agora de uma fama que lhe permite trabalhar com os melhores. Como neste filme são tantos e tão bons, não resisto a enumerar alguns: Ralph Fiennes, Adrien Brody, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Tilda Swinton, Owen Wilson, Jason Schwartzman, entre outros.

A história passa-se em três espaços temporais diferentes: 1985, 1965 e 1932, sendo o último destes o foco do filme. Somos apresentados  ao concierge do lendário Grand Budapest Hotel, o Monsieur Gustave (Ralph Fiennes), e ao novo criado de hotel Zero (Tony Revolori).

Este par vai ser vítima de uma série de aventuras cómicas à lá Wes Anderson, começando pela morte misteriosa de uma amante de 88 anos de M. Gustave. A família da velha fará de tudo para ficar com a herança destinada ao dono do hotel, e no processo vemos as personagens principais serem perseguidas, presas, esmurradas e envolvidas em tiroteios. Passamos por descidas de esqui e mosteiros, sociedades secretas, o roubo de um quadro valioso e o amor de Zero por Agatha (Saoirse Ronan). Tudo isto com uma rapidez e sentido de humor imparável. O verdadeiro mote do filme é o contar da história do Hotel, mas isso serve apenas de pretexto para o fogo-de-artifício que o realizador nos quer oferecer.

Hilariante à sua maneira, o filme consegue constantemente manter um bom ritmo. Mesmo quando o texto não é genial por si, o realizador consegue sempre superar esta lacuna ao escolher o ator perfeito para a frase certa. Para além dos ambientes e atores, o que distingue Wes Anderson é a estética imediatamente reconhecível: o universo colorido, os detalhes de guarda-roupa e cenografia, e o estilo de edição. Ah, e a colaboração com o director de fotografia Robert Yeoman – o par trabalhou junto em todos os filmes de não-animação de Anderson. Depois, o método. Escola de cinema Wes-iana: a) se possível, centrar os planos e obter o máximo de simetria concebível;

b) os movimentos de câmara devem ser poucos, rápidos e perfeitos; c) câmara sempre no tripé, filmar à mão é para bárbaros subdesenvolvidos; d) todo o décor datado e colorido dá direito a pontos extra.

Normalmente escreveria a lista acima como caricatura. Por isso é necessário avisar que, neste caso, é mesmo verdade: Wes Anderson é de um perfeccionismo técnico no limiar do obsessivo-compulsivo. O realizador procurou por toda a Europa por um hotel velho o suficiente para parecer clássico, e recente o suficiente para o tecto não desabar. No fim, acabaram por reconstruir completamente um centro-comercial alemão abandonado. Depois, o guarda-roupa incrível: algumas cenas no hotel contam com mais de 150 actores em campo, todos impecavelmente vestidos. Impecável também é a banda sonora, perfeitamente alinhada com as dezenas de acontecimentos que um só plano esconde. Alexandre Desplat, responsável pela música deste e dos últimos dois filmes de Anderson (Moonrise Kingdom e O Fantástico Sr. Raposo), já é tão importante e característico para o produto final como o director de fotografia.

Grand Budapest Hotel não é tão emocionalmente cativante como o seu predecessor, Moonrise Kingdom, que destacava a relação amorosa de um (muito) jovem casal. Mas sentem-se tonalidades novas na palete de Anderson, nomeadamente no forte sentimento de nostalgia. O filme em si, revelou o realizador, é inspirado no cinema de hollywood dos anos 30, e deve muito ao trabalho do autor Stefan Zweig. Portanto, acaba sempre por ser um tributo ao passado, com todos os sentimentos que daí advêm.

Não tem interesse nenhum intelectualizar demasiado um filme destes. É divertido e cartoonesco, com uma aventura quasi-policial estilo tintim. É visualmente fantástico, nos vários sentidos da palavra. Sempre que toca num tema sensível – morte, guerra, amor acabado em tragédia – fá-lo de um modo tão leve e natural que não nos deixa perturbados. E acaba tão bem como começa. Resta dizer: a ambição compensou.

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