Jeune-et-Jolie-marine-vacth

Jovem e Bela (Jeune et Jolie, 2013)

“Noite de Junho! Dezassete anos! Ficamos tontos

Com a seiva do champanhe que nos sobe à cabeça

Divagamos; Sentimos nos lábios um beijo

Que palpita ali, como um pequeno inseto.”

Rimbaud

Isabelle (Marine Vacth) fez dezassete anos no fim do Verão. Depois das férias, passadas numa casa junto à praia, Isabelle retorna ao tédio cinzento da cidade ainda com as marcas do sol coladas ao corpo. O corpo que já não é virgem.

O novo filme de François Ozon guia-nos ao longo do despertar sexual desta adolescente que, na sua sede insaciável de sensações, envereda por um caminho menos óbvio e certamente mais extravagante do que o que é comum na adolescência: a prostituição. Na pele de Léa, a sua persona, Isabelle começa a ter relações sexuais com homens mais velhos até que Georges (Johan Leysen), o cliente com quem tinha vindo a estabelecer uma relação progressivamente mais terna e genuína, morre de ataque cardíaco antes de chegar ao orgasmo. A sequência de eventos que se segue faz com que a mãe de Isabelle, Sylvie (Géraldine Pailhas), a dispa dos seus segredos e inicie uma longa e frustrante tentativa de compreender a razão por detrás das suas ações. Mas as razões permanecem sempre um mistério, até mesmo para a própria Isabelle.

“A adolescência foi insuportável até converter-se à ideia de uma suspensa, ou infusa, significação de tudo”, escreve Herberto Helder em Photomaton & Vox. É nesse mesmo ponto que conhecemos Isabelle. Curiosa, melancólica e consciente da sua incrível beleza, a adolescente age em função da sua necessidade quase febril de experienciar novas sensações e lhes dar um significado justo e real. Quando a vemos a perder a virgindade, sentimos que qualquer coisa estava em falta: vemo-la deitada sobre a areia da praia ao mesmo tempo que a vemos meio paralisada, ao longe, a observar o vazio e a apatia da sua primeira vez. E o enigma corre tão ferozmente nas veias de Isabelle, que nunca chegamos a compreender se se julga a si mesma ou se se limita a observar e questionar o significado das suas ações e, quem sabe, da sua existência.

Marine Vacth afirma-se esplendidamente no papel de Isabelle. As narrativas de Ozon em Jovem e Bela não são tão interessantes como as de Dentro de Casa (2012), por exemplo, o que faz crer que o que realmente prende o espetador ao ecrã são a beleza e performance extasiantes de Marine Vacth e a criatividade cinematográfica do realizador, complementadas por uma inteligente banda sonora que nos faz imenso sentido na voz jovem, doce e melancólica de Françoise Hardy – porque será?

De resto, a inesperada aparição de Charlotte Rampling perto do final é puro deleite e vem consolidar a firmeza de todo o elenco. A carga sexual frequentemente presente nos filmes de Ozon (5×2 e Swimming Pool, por exemplo) é aqui mais óbvia e, por isso, menos intensa – um aspeto interessante para um filme que pode facilmente ser categorizado como erótico.

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