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Les Grandes Ondes (à l’ouest)

Les Grandes Ondes (à l`ouest) é uma produção Francesa/Suiça/Portuguesa – que esteve recentemente no Indielisboa, realizada por Lionel Baier. Na presente proposta, a premissa, baseada em fatos reais, traça a história de um grupo de jornalistas suiços – Julie (Valérie Donzelli), Joseph (Michel Vuillermoz) e  Bob (Patrick Lapp) – que durante uma reportagem que procurava falar dos contributos da Suiça para a sociedade Portuguesa, se veem metidos numa revolução, sem que se apercebam muito bem o que se está a passar. Ao perceberem da inaptidão de Joseph, que dizia falar um português abrasileirado, para conseguir comunicar na língua local, recorrem aos préstimos de um jovem português, apaixonado por cinema francês, Péle (Francisco Belard), que passa a ser o tradutor desta equipa de reportagem. Estes olhos estrangeiros do filme servem para dar algum afastamento necessário para perceber a dimensão desta revolução, ainda que, por se tratar de uma comédia, não procure entrar em campos demasiado profundos.

à esquerda Joseph Cauvin, com Bob e Julie a seu lado e o "Tuga" Péle em baixo.

à esquerda Joseph Cauvin, com Bob e Julie a seu lado e o “Tuga” Péle em baixo.

Numa primeira fase nota-se uma tentativa de retratar a sociedade Portuguesa e os maneirismos suiços, caricaturando um pouco ambas as culturas, para os propósitos cómicos. Certo é que a formula era cómica, mas não desfasada da realidade à época: abordando desde a aliteracia portuguesa, passando pela perseguição da PIDE e o sexismo e o racismo que então imperavam. Houve também tempo para brincar com a contribuição suiça para a cultura portuguesa – destacando, obviamente o relógio.

Na segunda fase do filme, dá-se a revolução – aqui temos oportunidade de ouvir a senha revolucionária, a música Depois do Adeus, de Paulo do Carvalho, sem que os repórteres se apercebam do que estava para vir.

Aliás a banda sonora portuguesa foi uma constante, passando de fado, para Zeca Afonso, sendo um óptimo cartão de visita para o país. Isto porque houve um especial cuidado em não caricaturar demais. Notou-se uma investigação apurada à sociedade portuguesa e aos contornos da revolução. Havendo tempo para falar do que se avizinharia pouco tempo depois: a queda do regime de Franco em Espanha. Esta é a parte em que Pelé, enquanto avança em direção a frança, diz “até já” a um “camarada” espanhol, como pronuncio da futura revolução.

Na obra nota-se também uma mensagem mais pessoal por parte do realizador, que faz referência à necessidade e à importância da educação na sociedade, como uma forma revolucionária. Esses ideias revolucionários acabam por também ser recriados, não em termos ideológicos, mas em termos “orgiásticos”, ou de suruba (alguns irão perceber), pois uma das mais célebres expressões de liberdade é a sexual. Desta forma, em Les Grandes Ondes (à l`ouest), houve tempo para a representação muito cómica e “mamária” dessa expressão de liberdade. Destaque para a atriz Patricia André, que tem aqui um pequeno papel, mas bastante palpável e relevante (em sentido literal e metafórico).

Por tudo isto, sendo obviamente uma comédia, tem objetivos bem definidos nessa área e efetivamente cumpre-os: faz-nos rir. Para isso, não recorre excessivamente à caricatura, nem ao estereótipo (por exemplo, não se vislumbram buços farfalhudos em nenhuma parte da obra). No entanto, por ser uma comédia, não entra em campos mais idealistas e filosóficos sobre a liberdade, limitando-se a reportar uma visão estrangeira de alguns acontecimentos de abril. Certo é que ninguém se sentirá ofendido com este retrato, pois para além de todos os risos que espicaça, consegue salpicar um pouco de liberdade a espaços. Boa IndieLisboa!

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