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Matéria Oscura (2013) – 8 ½ Festa do Cinema Italiano

 Os testes militares e de armamento bélico são uma constante ao longo da história. Enquanto meio mundo dorme, do outro lado do planeta existe alguém a “brincar” com armas. Curioso o fato de só nos apercebermos disso, quando a guerra nos afeta, no conforto do nosso lar.

Talvez por isso, questões de legitimidade política – em que para bem de uma dita “maioria” se prejudica uma “minoria – podem ser levantadas por qualquer pessoa, a qualquer momento, basta que para isso haja espírito crítico.

Em Materia Oscura, as questões políticas são quase inexistentes. Ao invés, é mais um daqueles documentários não-intervencionistas, que opta por ser contemplativo. Contemplando-se tanto a ele próprio, que perde o foco e se torna mais um exercício sobre “como nos mantermos acordados”, em vês de um exercício de reflexão, que era aquilo a que se propunha inicialmente.

O local em que é filmado, e o principal foco, é o campo de ensaios de Salto di Quirra (Sardenha, Itália), onde durante mais de 50 anos, governos de vários países testaram novas armas e onde o governo italiano executava explosões controladas sobre armamento antigo. As consequências foram as contaminações dos solos com materiais radioativos. Desta forma, o principal ênfase deste documentário de 80 minutos são os efeitos ambientais, diretos e indiretos.

Qual dicotomia de Cesário Verde, que deambulava entre a cidade e o campo, aqui traça-se um paralelo entre a zona de guerra, onde se testavam as armas, e a aparente calmaria e impenetrabilidade do meio rural.

Assim, é visível que Massimo D’Anolfi e Martina Parenti (os autores do documentário) estão menos interessados em encontrar culpados e em mostrar fatos, e mais ocupados a tentar potenciar epifanias em quem vê o documentário. Ato que é de forma geral falhado. A utilização da camera fixa, para mostrar a paisagem fraturada e as implicações para a saúde pública da existência de atividade bélica, acaba por ser o que de melhor tem o filme.

Depois perde-se em malabarismos pretensiosos, que apenas servem para nos afastar do foco principal. Às tantas estamos mais preocupados com o bezerro adoentado, que surge na obra, do que com a obra em si.

No fim, sobra ainda tempo para um desfecho absolutamente pavoroso, com a câmara a afastar-se do local, ao som da mais melodramática música (até aí inexistente), tudo para forçar alguma coisa, algum sentimento. No fundo, a intenção de Materia Oscura era boa, já a conceção…

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