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O Homem da Câmara de Filmar (Chelovek s kino-apparatom, 1929)

O Homem da Câmara de Filmar é uma obra prima.

Inevitavelmente belo, o filme mudo de Dziga Vertov seduz-nos também pelo seu caráter genuinamente expansivo, humano e ousado. Sem qualquer enredo, personagens ou diálogo, O Homem da Câmara de Filmar é uma proposta para sairmos do domínio do óbvio e nos lançarmos à experiência sensorial pura. O que Vertov pede à sociedade dos anos 20 é que esta compreenda que o cinema é mais do que aquilo que se conhecia até então: teatro, linguagem, literatura. O cinema é experiência visual universal e pode ser, na verdade, tudo aquilo que quisermos.

Pode-se mesmo dizer que, O Homem da Câmara de Filmar, é um dos filmes mais criativos de sempre da história do cinema. Partindo de uma premissa simples – transpor a realidade para o grande ecrã – o realizador tem o mérito de criar uma obra que transcende, utilizando inúmeras técnicas que acabam por lançar as bases do cinema como o conhecemos hoje. O que percecionamos não é apenas a realidade mas sim múltiplas formas de a observar e sentir. Se, por vezes, somos confrontados com um ritmo tão alucinante que os nossos olhos mal conseguem acompanhar a imagem, outras estamos perante um ritmo tão lento que somos obrigados a ver todos os detalhes, mesmo os que não queremos. Aliás, principalmente os que não queremos. Da mesma maneira, Vertov surpreende-nos com freeze frames, split screens e até um breve momento de stop motion. Compreendemos então porque é que, em 1929, o filme chega aos cinemas e choca.

Perguntam-se, talvez, porque é que um filme mudo tão antigo pode ser surpreendente. A verdade é que O Homem da Câmara de Filmar é incrivelmente atual. Do ponto de vista filosófico, talvez até existencial, o filme é um festival de emoções silenciosas e subliminares que explora essencialmente aquilo que é estar vivo neste mundo. A câmara de Vertov parece mover-se entre todos os polos: sentimos a esperança ingénua de um casamento e a vergonha absurda de um divórcio; o êxtase de uma mulher a dar à luz e o peso escuro de um corpo que já não respira; o cansaço doente do proletariado e o desprendimento das suas horas vagas. Vemos olhos de criança, lábios de velha, uma sexualidade meio reprimida entre as pernas de uma mulher, a ferocidade das máquinas que nos faz lembrar o “r-r-r—r-r-r eterno” de Álvaro de Campos e, como pano de fundo, uma cidade viva. O Homem da Câmara de Filmar toca-nos por isto: nós somos o próprio filme. E o filme é-se a si próprio também, já que começa com uma audiência a preparar-se para vê-lo a ser feito e termina com a lente da câmara a fechar-se.

Ao longo do tempo, várias composições musicais foram criadas para acompanhar a visualização do filme, desde o eletrónico ao clássico, com The Cinematic Orchestra e Michael Nyman, por exemplo. Mas a obra de Vertov é tão cativante que dá vontade de ver e rever, alterando o acompanhamento sonoro para explorar como a experiência percetiva pode mudar. Inevitável o paralelo com os filmes Baraka e Samsara, ambos igualmente fascinantes.

  • Diogo Vilaça Santos

    Fica o nome original do filme – Человек с киноаппаратом – para os leitores que nos seguem da Rússia.

    • E que são simultaneamente bilingues….Ainda é um nicho grande

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