Last Tango Paris 1

O Último Tango em Paris (Last Tango in Paris, 1972) – Cine-Jantar 8 ½ Festa do Cinema Italiano

Na passada sexta-feira realizou-se o primeiro, de dois, cine-jantares do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, no Mercado de Santa Clara – Centro das Artes Culinárias. O filme que acompanhou o menu gastronómico foi o clássico O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (mas só após o jantar, para não existirem possíveis questões logísticas no que toca à digestão de algumas cenas mais fortes). Num ambiente que se pode considerar de festa, notou-se uma grande adesão por parte do público ao jantar, ao ponto de tornar o recito uma espécie de sala de cinema, tal era o número de convidados. A abrilhantar o certame estava o excelente catering, cortesia do restaurante Italiano Casanostra, e a simpatia de todos os intervenientes da festa – obviamente não faltou pasta e tiramisù, já a manteiga ficou reservada lá mais para a frente, durante o filme.

Quando a fome se junta com a qualidade.

Quando a fome se junta com a qualidade.

A projeção começou com uma situação caricata: a cópia projetada no grande ecrã era pirateada, numa versão Blu-ray, com legendas da “TugaTeam”, perante o espanto dos mais atentos – será que não havia dinheiro de parte para comprar legalmente o filme? Apesar desse descuido, que poucos terão reparado, nada disso desprimorou o sucesso do evento.

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O início da projeção num ambiente bem festivo.

Em relação ao filme propriamente dito, importa começar por definir tango: segundo Enrique Santos Discépolo tango é um ”pensamento triste que se pode dançar”. Ora esta definição assenta que nem uma luva ao filme. Nesta díade, o dominador que guia a dança é Marlon Brando, um homem que acaba de perder a mulher (suicidou-se), e de forma a “dançar” os seus pensamentos encontra conforto nas suas perversidades sexuais, procurando em Maria Schneider, que interpreta Jeanne, o objeto dos seus impulsos. Por outro lado, Jeanne, na sua índole infantil, descobre na figura misteriosa de Brando um apoio, ainda que disfuncional.

Em O Último Tango em Paris, vemos muito para além da história em si: desde referências políticas – como quando Jeanne diz que quer que o seu filho se chame “Fidel, como Fidel Castro” – passando por alfinetadas na igreja e no que essa instituição apregoa, sempre com um propósito, bem vincado, de abanar, de chocar, de provocar algo em quem vê o filme. Se, visto no contexto do séc. XXI, pode não parecer assim tão chocante, a verdade é este tipo de obra em 1972 (altura em que tínhamos Franco em Espanha e Salazar em Portugal) serviu para balançar um pouco um mundo que se fechava sobre ele próprio e censurava sem compreender. Esse choque é visível acima de tudo na personagem de Brando – que funcionava como prolongamento de Bertolucci, dirigindo-se a ele próprio, improvisando em vários pontos do filme, manipulando uma jovem Maria Schneider ainda muito ingénua – imagem que transpõe muito bem para a sua personagem. É curioso verificar que a forma grotesca como foi tratada, na altura, pelo par Bertolucci/Brando, resultou numa obra prima, mesmo em termos interpretativos. Mais, algumas das cenas mais salientes e eróticas foram feitas por uma Maria Schneider de 20 anos, que mais tarde assumiu ser virgem. Essa inexperiência e manipulação a que foi sujeita tem o seu expoente máximo na famosa cena da manteiga (improvisada e para a qual Maria não tinha sido informada), altura em que os soluços da personagem Jeanne se confundiam com os da própria atriz.

Já Brando “limitou-se” a ser Brando, mostrando-nos, durante aquelas duas horas, o que se pode considerar como uma catarse cinematográfica, onde a sua drive sexual e agressividade inicial serviam para sublimar a dor que sentia pela perda da sua mulher. Com o decorrer do tempo ele consegue finalmente libertar-se e ficar em paz.

Depois e durante todo este ensaio sobre os instintos sexuais de Brando e a repressão da morte da sua mulher, somos brindados com diálogos absolutamente geniais. A capacidade de chocar, usando vernáculo e comentários que nem o mais habilitado dos trolhas conseguiria fazer, consegue dar ao filme espasmos intelectuais sobre a forma de brejeirice necessária. Isto sempre acompanhado de uma magnífica banda-sonora de Gato Barbieiri e a fotografia de Vittorio Storano – o rat pack habitual do realizador.

Assim, mais que marcar uma época pelos diálogos (tão fortes que se tornam gráficos) e pelas cenas menos conservadoras, O Último Tango em Paris ganha pontos pela inteligência com que usa todos esses componentes para criar uma obra consistente em todos os níveis. Apesar disso, não é fácil digerir e em partes é normal gerar a confusão típica de quem está perdido. No entanto, andar perdido num sítio desconhecido, mas incrivelmente belo, pode ser uma atividade muito prazerosa (que o diga Brando, que dá todo uma nova roupagem ao conceito de corta-unhas).

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