rFuHBSR-nvLkYS5VP,Ofcz9g_

Sei Lá (2014)

Ver Sei Lá até ao fim é um ato de coragem.

Independentemente do facto de ser inspirado no romance de Margarida Rebelo Pinto publicado em 1999, o novo filme de Joaquim Leitão podia miraculosamente funcionar. Podia até ser um daqueles fenómenos de preconceito Susan Boyle em que o público desaprova a priori e acaba por se surpreender com o resultado final. Mas não. Não estamos perante um desses casos.

Sei Lá falha redondamente em todas as variáveis. Mas como é tudo uma questão de perspetiva, podemos dizer que foi muitíssimo competente, se pensarmos que o objetivo era retratar as Mulheres como um bando de primatas carregados de baton rouge e com um quoficiente de inteligência abaixo de -20.

Habilitando-se a uma inevitável comparação com O Sexo e a Cidade, a história foca-se na relação entre quatro amigas da classe média-alta e as suas vidas amorosas. Até aqui tudo bem: as relações humanas, principalmente se envolvem amor, são um tópico potencialmente infinito e interessante com o qual todos acabamos por nos identificar um pouco. Esta premissa não teria problema nenhum se não tivesse sido absolutamente ridicularizada ao longo de todo o filme. Sei Lá não nos diz nada sobre o amor, ou a complexidade e beleza contraditórias que nele encontramos. Sei Lá é um conto de fadas disfarçado de vida real que retrata o amor de forma reducionista, básica e terrivelmente desinteressante.

O filme é pautado pela narração insuportável de Madalena (Leonor Seixas), que nos faz entrar em dissonância cognitiva ao ouvimos a voz de uma mulher de trinta anos que fala como uma rapariga de treze a entrar na puberdade. Esta foi a primeira pista para compreendermos que estamos perante um argumento fraquíssimo que retrata o género feminino como sendo infantil, desinteressante e sem vontade própria. Em Sei Lá, a Mulher é um ser marcadamente passivo perante o mundo e sem qualquer tipo de poder ou capacidades. Mas também o género masculino sofre uma ligeira distorção, já que para Madalena e as suas amigas os homens são todos “uns grandes cabrões!”. Esta será talvez a grande desilusão do filme: uma visão demasiado básica e reducionista do ser humano que pode e irá, certamente, iludir os espectadores mais ingénuos.

De um modo geral, a história vai decorrendo numa cadência cada vez mais irritante não apenas pela baixa qualidade do argumento, cuja construção contou também com Margarida Rebelo Pinto, mas também pela terrível banda sonora, que transformou todos os momentos dramáticos em comédia.  Leonor Seixas deu vida a uma Madalena muitíssimo “sem sal”, o que constituiu também um dos piores pontos do filme. O resto das prestações foi aceitável, contando com uma Patrícia Bull (Mariana) muito discreta, Ana Rita Clara (Luísa) saída de um filme porno, Gabriela Barros (Catarina) a transbordar emoções e António Pedro Cerdeira (Francisco) irrealisticamente apaixonado. Ironicamente, a única prestação digna de elogio foi a de Rita Pereira ao representar Odete, a bairrista sedenta de fama que acabou por encher o ecrã de cada vez que entrava em cena.

ARTIGOS POPULARES

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com