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Transcendence: A Nova Inteligência (2014)

Imaginemos que de repente o mundo inteiro fica offline. Não parece assim tão assustador, afinal, vivemos milhares de anos da nossa civilização assim. No entanto, acrescente-se a dependência atual que a humanidade tem da tecnologia e a constante necessidade de estarmos ligados em rede. Essa rede funciona como uma espécie de deus artificial que tudo vê. Agora, adicione-se consciência a essa máquina. A consciência de existir, em conjunto com o poder e a capacidade analítica típica de um computador, conseguiria expandir-se e tornar-se omnipotente; um verdadeiro deus virtual que, como Johnny Depp questiona no início do filme: “não será o que sempre desejamos?”

O Estreante Wally Pfister parte daqui para criar um filme de ficção científica um pouco à frente do seu tempo e cujo tempo lhe fará justiça. Talvez não alheio a isso estará a sua experiência enquanto cinematografo de Nolan – ganhou um óscar por Inception – o que se nota tanto em termos visuais – um dos pontos fortes do filme – como em termos filosóficos – na necessidade de criar algo mais que um típico blockbuster de ação.

A premissa será aparentemente algo tola: Will Caster, um cientista que está prestes a criar um mecanismo capaz de fazer upload da inteligência de qualquer pessoa, é assassinado por um grupo de extremistas, que teme o que essa evolução tecnológica pode trazer. Depois – esta é talvez a parte mais inverosímil – misturam-se conceitos como consciência, inteligência e alma, e Will pede à sua mulher Evelyn (Rebecca Hall) que esta faça upload da sua alma. No fundo é isso que se trata, ainda que os termos sejam algo atabalhoados na explicação – também o eram em Inception – o que se pretende aqui é criar um algoritmo capaz de recriar todas as interações nervosas do cérebro geradores do animus (alma), que nada mais é do que a consciência de existir.

De um lado Johnny Depp - muito fraquinho neste filme - do outro, Rebecca Hall, que está exemplar.

De um lado Johnny Depp – muito fraquinho neste filme – do outro, Rebecca Hall, que está exemplar.

Aqui entramos num segundo ponto, mais filosófico, onde o filme se consegue destacar: Como provar que existimos? No caso de Will, entramos num paradoxo semelhante ao do navio de Teseu: Se substituirmos todas as peças de uma máquina e a colocarmos noutra, qual delas é a verdadeira, ou serão ambas? No caso do Will, quando morre, o seu animus é descarregado em supercomputadores, cheios de algoritmos. Mas será mesmo ele?

É aqui que a perversidade da tecnologia entra em ação. Se um computador com consciência tiver noção de que não tem limites, vai tentar encontra-los, aumentando a sua inteligência e o seu poder, através da internet, até ultrapassar os limites da privacidade e se comportar como deus. Todavia, não foi isso que sempre desejarmos? Ter alguém omnipotente que zele por nós? A resposta é clara: Não! Nós gostamos da ideia de alguma entidade invisível olhar por nós, desde que não tenhamos noção da sua existência. É outro paradoxo interessante: Cremos e queremos Deus, desde que ele não seja provado, aí tornar-se-ia incómodo.

Voltando à narrativa do filme, numa altura em que se prolonga talvez um pouco e adiciona o tal toque de blockbuster – a história de amor entre Will e Evelyn – há ainda que destacar Paul Bettany, que interpretava Max Waters, melhor amigo de Will, mais preocupado com a dinâmica homem-tecnologia, e com a visão excessivamente tecnológica que a sociedade está a tomar, retirando a tomada de decisão do homem e dando-a à máquina. O seu desempenho, em conjunto com Rebecca Hall, é outro dos pontos altos do filme. Nesse aspeto, Morgan Freeman e Cillian Murphy têm papeis pouco salientes, enquanto Johnny Depp parece em “modo automático Johnny Depp”, sendo o principal causador da monotonia que o filme, em partes, transmite.

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