Untitled

Abus de Faiblesse (2013) – Indielisboa 2014

Uma pessoa bonita disse-me, há dias, que o que lhe apetecia naquele instante era ir para o meio de um campo aberto e dar um cortante e demorado grito. Abus de Faiblesse é como um desses gritos. Uma catarse penetrante que, em determinados momentos, quase explode com a nossa função cardíaca. Assumidamente autobiográfico, o filme de Catherine Breillat conta-nos a história de como a escritora e realizadora de cinema Maud (Isabelle Huppert) sofre um AVC e, ao longo da recuperação, conhece Vilko (Kool Shen), um ex-burlão que a leva à ruína.

Começamos por ouvir o familiar som de um coração a bater enquanto o ecrã está coberto de tecido branco. São os lençóis de Maud que, dentro da cama, começa a ter os primeiros sintomas do AVC. Acompanhamos Maud durante o ataque até a encontrarmos, novamente, num quarto de hospital. Estas primeiras cenas do filme contêm uma força quase inexplicável. Engolimos em seco. Isabelle Huppert nunca desilude. Incrivelmente credível, a atriz mostra-nos como Maud sofre ao tentar controlar os movimentos do seu braço esquerdo e também da boca, para conseguir rir. Maud lacrimeja e implora à terapeuta da fala: “O que me preocupa é não conseguir rir, porque adoro rir. Por favor, ajude-me a conseguir rir”. Somos confundidos. Talvez este pedido de ajuda vá para além da capacidade física-motora. Talvez Maud estivesse também a pedir um motivo para rir. Isabelle Huppert, implacável, recorda-nos de que não fazemos ideia do que é ter de lutar contra o nosso próprio corpo.

É já relativamente recuperada e a trabalhar no seu próximo filme que Maud conhece Vilko. A realizadora vê no ex-burlão as caraterísticas mais proeminentes do personagem principal do filme – indiferença, rispidez, violência – e, mesmo conhecendo o seu passado e sabendo que não tem qualquer experiência em representação, contrata-o. Vilko foi como uma droga. Maud confiava que a sua forte personalidade estava sob controlo mas não se apercebeu quando se deu a inversão dos papéis. Kool Shen (ou Bruno Lopes), o rapper francês de origens portuguesas, foi eficaz na forma como explorou as tendências manipuladoras e persuasivas de Vilko.

O filme decorre com a exploração, não tão aprofundada quanto poderia ter sido, da relação abusiva entre Vilko e Maud. Ficamos com a impressão de que Maud é fortemente seduzida pela sensação de perigo e rebeldia que a relação com Vilko representa – talvez essa seja a intensidade que a faz sentir mais viva depois de sentir que metade do seu corpo está já morto. A atração nunca é sexual mas sim psicológica. Maud tem prazer ao fazer daquele homem criminoso um escravo, ao ajudá-la com as suas tarefas diárias (calçar as botas, andar, sentar), sentindo-se superior; e Vilko tem prazer ao transformar a sua atitude aparentemente altruísta em assinaturas de cheques com valores avultados.

É nestas interações de ajuda diária e passagens de cheques que Catherine Breillat deixa a sua longa-metragem perder algum ritmo. Ainda assim, as competentes atuações de Huppert e Shen vão distraindo o espetador, mostrando como Maud foi progressivamente perdendo tudo o que tinha, sem nunca se questionar sobre o que se passava de forma suficientemente racional. Não chegamos a compreender bem como as coisas puderam chegar a tal ponto e Maud também não. É o final do filme que devolve a Abus de Faiblesse, a sua força. Chocante, não por ficarmos a saber algo de novo, mas pelo absurdo do inexplicável. Isabelle Huppert, novamente com um poder incomparável, está séria e corajosa em frente aos seus filhos e advogados. Os olhos cheios de água. Maud não sabe como tudo se passou. “Era eu mas não era eu”.

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com