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Bertolucci on Bertolucci (2013) – Indielisboa 2014

Se Bertolucci ainda não é uma lenda, sê-lo-á. Talvez por o saberem, Walter Fasano e Luca Guadagnino, decidem investir na realização de Bertolucci on Bertolucci, um documentário que retrata de forma riquíssima a obra do realizador italiano e, mais do que isso, dá-nos a conhecer a personalidade do realizador numa profundidade que talvez nenhuma outra pessoa conseguiria, já que tudo o que ficamos a saber sobre Bertolucci  é dito pelo próprio. The Artist Is Present.

Bertolucci on Bertolucci não tem uma única filmagem original e, ainda assim, não perde originalidade. Apesar de ser orientada cronologicamente pela obra do cineasta, a imensa coleção de entrevistas utilizadas neste documentário salta entre décadas, sociedades, línguas e países com uma coerência que não confunde o espetador. Oscilamos entre entrevistas a preto e branco, de uma Paris revolucionária e idealista, e entrevistas da era moderna, que deixam de fora os longos cigarros fumados dentro do estúdio, tanto pelo entrevistador como pelo entrevistado. A isto chama-se a passagem do tempo, que parece não assustar Bertolucci, um realizador do passado que se deixou corajosamente ficar até ao presente. E nós agradecemos.

 Quando, aos catorze anos, conhece Pier Paolo Pasolini, confundindo-o com um ladrão, Bertolucci começa inconscientemente a ditar o seu futuro. Tornam-se amigos e colaboram juntos nas suas criações artísticas, influenciando-se mutuamente numa dança literária e poética que encontra a sua expressão através da lente. Para Pasolini, o cinema era “a literatura da realidade”; para Bertolucci, era poesia.

Inspirado e fascinado pela Nouvelle Vague francesa, o jovem realizador estreia-se com La Commare Secca (1962) e Prima della Rivoluzione (1964), estendendo-se depois a obras com um tom mais sócio-político (II Conformista, por exemplo), mas sem nunca se tornar militante político – ao contrário de Godard –, revelando uma consistência e autoconhecimento que lhe valeram, talvez, a longevidade da sua carreira. “Eu sou realizador de cinema, não sou político. Faço filmes, é isso que faço”.

 De fato, ao longo das décadas, Bertolucci apresenta-se coerente e consciente de si próprio, não dando grande espaço para quebras ou intimidações mesmo quando sobre ele recaem fortes críticas, nomeadamente com o polémico elenco de Último Tango em Paris (1972). Essa firmeza e força parecem dever-se especialmente à afeição que Bertolucci tem pela psicanálise, tendo sido acompanhado por vários psicanalistas ao longo dos anos (“sempre homens!”, como fez questão de reforçar). Mas a verdadeira salvação acaba por ser o próprio cinema, que lhe serve para interpretar a realidade misteriosa e caótica do mundo.

É com prazer que vamos ficando a conhecer o homem por detrás do realizador que é Bertolucci. Imperativamente poético, reflexivo e introspetivo, passeia-se pelo tempo sem grandes medos e muita paixão. Uma paixão que se mantém, já que depois dos 70 anos e preso à cadeira de rodas, o realizador continua a fazer a câmara rodar, tendo em 2012 estreado Eu e Tu.

Apesar do inegável interesse e importância para a história do cinema, Bertolucci on Bertolucci (2013) peca apenas por manter sempre o mesmo registo: dezenas de entrevistas numa sequência tão condensada que não dá tempo ao espetador para respirar e processar a informação. Talvez a poesia que transborda em Bertolucci seja o que tenha ficado em falta ao documentário que o edifica. Ainda assim, tutto va bene! Bertolucci on Bertolucci nunca deixará de ser um documentário que fará feliz qualquer amante da sétima arte.

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