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Ça Brûle (2013) – Indielisboa 2014

“Amor é fogo que arde sem se ver”, diz-nos Luís Vaz de Camões num dos seus mais conhecidos sonetos. Para Livia (Camille Varenne), a adolescente que ficamos a conhecer neste filme de Claire Simon, amor é fogo e esse fogo arde mesmo. É que em Ça Brûle, tal como o nome indica… Tudo queima.

O filme passa-se numa pequena vila do sul de França onde Livia passa grande parte do seu tempo a passear montada no seu cavalo, E.T. Um desses longos passeios acaba numa queda que deixa Livia inconsciente por alguns momentos e Jean Susini (Gilbert Melki) é quem aparece para a ajudar. Jean é mais velho e tem a sua família, o que parece não ter importância nenhuma para a adolescente que, a partir desse dia, começa a desenvolver uma forte obsessão pelo bombeiro, vivendo uma fantasia que acaba por transformar a realidade em cinzas.

Jean Susini parece ter um instinto paternal forte e Livia tem um pai ausente. Talvez essa seja a primeira razão para a sequência de eventos que nos conta Ça Brûle. A necessidade de atenção da adolescente faz com que comece a enviar mensagens de texto a Jean e, quando este não responde, ela eleva a fasquia, deixando o bombeiro numa espécie de dilema inconsciente. Os catorze anos de Livia impulsionam também a sua descoberta sexual, que parece ser vivida com alguma agressividade. As experiências que vai tendo com os amigos Moisi (Kaher Mohamed) e Amanda (Marion Maintenay) acabam por se traduzir em mensagens para Jean com conteúdos cada vez mais explícitos. Desesperada pela atenção do bombeiro, a adolescente aproveita um dia especialmente ventoso para atear um pequeno fogo no meio da floresta. And it burns, burns, burns… the ring of fire. 

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Ça Brûle (2009) quase que pede uma divisão em duas partes: uma primeira em que vemos crescer a obsessão de Livia e as reações de Jean (destaque para as prestações competentes de Gilbert Milke e Camille Varenne); e uma segunda parte em que o personagem principal é o fogo. De fato, Claire Simon, que estava presente depois da projeção do filme para responder a questões, confirmou a importância da presença do fogo no filme e explicou ainda que todas as filmagens foram reais. Na verdade, a realizadora demorou dois verões a perseguir os incêndios, muito vulgares no sul de França – tal como, aliás, em Portugal – para conseguir filmagens realistas. A qualidade da imagem acaba por ter um resultado muito singular e quase rústico.

A importância e tempo dados às cenas em que vemos o fogo a deflagrar as florestas e a pequena vila envolta em fumo cinzento parecem ser uma forma de confrontar o espetador com a consequência real das ações fantasiosas da adolescente. Claire Simon adianta ainda que a história é inspirada em fatos verídicos (aconteceu numa vila perto de onde vivia) e que ficara perplexa pelo fato de a adolescente ter chegado ao ponto de atear o fogo, comparando a ação com um ato de terrorismo suicida.

Ça Brûle é um filme que oferece alguns simbolismos aos espetadores mais perspicazes e, apesar do seu ritmo monótono, principalmente na segunda parte, é eficaz na mensagem que pretende passar. De forma mais ou menos rebuscada, faz lembrar A Caça (2012), o filme do realizador dinamarquês Thomas Vinterbeg em que a fantasia de uma menina de quatro anos destrói a vida a um professor inocente.

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