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Filmes da Minha Vida (Nuno Pereira) – Rocky (1976)

Em 1975 Muhammad Ali decide enfrentar, num combate para o título mundial, Chuck Wepner, um lutador de pesos pesados sem expressão no mundo no boxe. Contra todas as expectativas, Chuck não só aguenta o primeiro round, como consegue mesmo derrubar (ainda que por breves segundos) o eterno campeão do Mundo, Muhammad Ali. Bem, o pior veio depois, levou tanta pancada, que ficou da cor do próprio Muhammad, acabando por perder por KO técnico, mas só quase no fim da 15ª ronda. Estas são as histórias que o mundo gosta e precisa: os american dreams, onde qualquer um tem uma oportunidade – mesmo que acabe esmurrado pela vida, ou, neste caso, por Muhammad Ali.

Não alheio a isso. Sylvester Stallone, um ano depois, começa a rodagem de Rocky, com sensivelmente a mesma história e, no ano seguinte, ele próprio era representativo do sonho americano, onde até um ator com a voz arrastada e um aparente atraso cognitivo consegue ser comparado a Charlie Chaplin, sendo nomeado para o óscar de melhor argumento original e melhor filme (ganhou o óscar de melhor filme).

Isto sim é o sonho americano, ou neste caso, um meta-sonho americano (vivido na história do filme e pelo próprio ator da obra).

Quantas vezes me lembro de estar com o meu pai, num conforto de qualquer sala, isso é irrelevante, a ver o Rocky desferir punhos que, na minha cabeça infantil, só seriam superados em força pelos do meu pai. Isso mesmo: o Rocky era para mim o segundo homem mais forte do mundo (sendo o primeiro obviamente o meu progenitor). Quantas vezes dei por mim a imitar os gestos, a ouvir a música que ele utilizava para treinar, a tentar falar como ele…

O que tornava a história mais real era o facto de ser constituída por pessoas que cheiravam a realidade.  Na maioria dos filmes, que utilizam narrativas de superação como pano de fundo, o herói é um underdog, mas com uma cara de Ken e uns bíceps de The Rock. Para além disso, no fim, eles levam sempre a miúda loura com os peitos mais voluptuosos (ora, uma criança de 7 anos que veja isso vai imediatamente começar a pensar que o mundo é injusto). Ao contrário, em Rocky, vemos um Sylvester Stallone tão bonito quanto uma rua alcatroada e uma Adrian (o seu par romântico) com uma cara que dava toda a sensação que, momentos antes, tinha estado a arder e, para apagar o fogo, usaram um martelo pneumático.

Isso, meus amigos, é realidade! No meio dos ghettos de Filadélfia não faz sentido encontrar um pugilista com a manicura feita e os cabelos arranjados. Não, o que faz sentido é ver um tipo com a cara feita num bolo, uma voz arrastada e um espírito de luta tão forte, quanto a falta de higiene pessoal que transparece.

Eu era uma criança sonhadora, por isso, queria filmes que me fizessem sonhar. Queria ver socos e “contra-socos”, queria ver o Rocky gritar “Adriaaaaaaaaan” na altura da vitória. Queria ver o Apollo Creed no chão, por mais irreal que fosse ver um zé-ninguém partir uns ossos ao Zé-magnânimo. Rocky fez-me acreditar que não faz mal tentar o que não é possível, mas que também não é impossível. Acreditei e acredito naquele limbo intermitente que faz a vida valer a pena e, felizmente, sou mais bonito que o Rocky – mas que ninguém ouse se quer dizer mal da franquia Rocky “ah e tal, o Rocky é um filme mau”. A minha resposta para esses indivíduos é: Se querem novela metam na TVI e deixem o Rocky em paz.

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