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Liv & Ingmar – Uma História de Amor (2012)

 “Para mim, o rosto humano é o tema mais importante do cinema”, disse Ingmar Bergman. Em Liv Ullmann, o realizador sueco encontrou o rosto perfeito. Mas, como iremos descobrir, não estamos aqui para falar de cinema.

Ela chama-se Liv. Ele Ingmar. Liv viveu com Ingmar, amou-o, chorou-o. Ficou famosa por atuar em filmes que desafiaram os limites do cinema. Ingmar ficará para sempre famoso por tê-los escrito e realizado. Liv & Ingmar conta a história de um casal que toda a vida viveu num equilíbrio frágil entre a arte que faziam e a relação que partilhavam.

Ingmar Bergman tinha 46 anos e era já considerado um dos maiores cineastas do seu tempo. A fasquia altíssima subiu quando o realizador convidou Liv, na altura com 25 anos, para atuar na sua obra-prima: Persona (1966). A vida profissional e amorosa de Bergman coincidiu constantemente – o que é uma forma leve de dizer que Ingmar se envolveu inúmeras vezes com as suas atrizes. Em Persona, por exemplo, um olhar cínico vê um realizador a dirigir uma amante e uma ex-amante (Liv Ulmann e Bibi Andersson, respectivamente). Mas desta vez era diferente. Ou pelo menos, é isso que Liv nos quer fazer crer.

A narração está honestamente enviesada pelo facto de ser feita, totalmente, por Liv Ulmann. Bergman disse-lhe um dia: “sonhei que estávamos dolorosamente ligados”. E o cineasta fez por manter esse sonho. Não é de admirar, com a obra negra e existencialista do mestre, que Liv nos acabe por revelar alguns dos demónios pessoais de Ingmar. No início, este desejava completo isolamento… com a sua amada. Construiu uma parede – metafórica e literal – entre eles e o resto do mundo. Às quartas-feiras, Bergman autorizava Liv a ir sair com amigos, beber e dançar. Mas esta teria rapidamente de voltar para o mundo solipsista que Ingmar havia criado. Um sonho fabricado por um, com espaço para dois.

Como seria de esperar, nasceu a solidão. Depois o ressentimento, a inveja e a raiva (santíssima trindade do veneno relacional). Separaram-se. Afastaram-se. Mantiveram-se em contacto. Trocaram cartas e telefonemas. Tornaram-se, finalmente, profundos amigos. Voltaram a estar e trabalhar juntos, até à morte do mestre.

A maior parte do documentário passa-se na ilha de Fårö, onde Bergman construiu uma casa para ele e Ullmann, logo após se conhecerem em Persona. A cinematografia de Hallvard Braein é brilhante, capturando a ilha de Fårö e a beleza etérea da atriz como só o próprio Bergman sabia fazer. As cores do filme são incrivelmente vívidas e contrastadas. A música é sentimental a um ponto de quase manipulação emocional. Há momentos tão “perfeitos” que só um calculismo cinematográfico apurado poderia criar. Aliás, este ênfase na beleza estética trabalha tanto a favor como contra o documentário, que às vezes parece demasiado polido, bonito, romantizado.

O título do filme é um aviso honesto: Liv & Ingmar não se foca na vida profissional, nem na mestria técnica, do realizador e da actriz. Não está sequer interessado em analisar o trabalho que fizeram juntos. O filme foca-se na relação dos dois artistas como seres humanos. “Apenas”. Como tal, este não é o filme para aqueles que queiram saber mais sobre o trabalho de Bergman, por exemplo.

Preferem verdade crua ou romance? Esta pergunta não seria (tão) difícil se isto não fosse, afinal de contas, um documentário. Como nos é apresentado, Liv e Ingmar foram almas-gémeas. Mas é difícil ter uma imagem completa da relação, já que mais nenhum depoimento é recolhido, para lá do de Ulmann. O realizador do filme é Dheeraj Akolkar, mas em vários sentidos é a própria Liv que o dirige. E o resultado é belíssimo, sem dúvida. Como documentário, é limitado por partir de uma premissa simples: a relação, toujours a relação. Mas, ironicamente, apenas temos uma metade do casal para a descrever. E contar a história ou reescrever a história é um dilema (muitas vezes inconsciente) para qualquer autobiógrafo.

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