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Lloyd Kaufman – A arte do mal fazer

“Se o James Brown é o padrinho do Soul, então o Lloyd Kaufman é o padrinho do Trash Cinema”.

A primeira vez que vi um filme produzido por Lloyd Kaufman, na sua produtora Troma, tive uma experiência inesperada. Quer porque, na altura, desconhecia a sua curiosa obra, quer ainda pela tão grotesca (e fascinante) gratuitidade da violência e sexo que o filme apresentou.

Father’s Day (Dia do Pai, 2011) estava a passar numa sessão tardia na sala secundária do Cinema São Jorge, integrado na programação do Motelx 2012, o festival de cinema de terror de Lisboa. Arrisquei ir ver o filme, seduzido pelo cartaz de apresentação, que me fez lembrar os posters dos cinemas grindhouse que passavam exploitation films e que eu, sendo um fã de cinema trash e de filmes grindhouse, procuro ver sempre que possível.

Poster do filme Father´s Day

Poster do filme Father´s Day

Investigar a produtora Troma e esse tal Lloyd Kaufman passou a ser uma necessidade para que pudesse dar resposta às dúvidas que me assolavam: Porque é que alguém, nos tempos de hoje, dedicaria a sua vida a fazer exclusivamente “filmes maus”?E porque é que mesmo sendo mau, tinha sido tão bom?

A resposta a estas perguntas obriga-nos a conhecer melhor esse personagem a quem decidiram chamar Lloyd Kaufman.

Aqui o Próprio Lloyd Kaufman.

Aqui o Próprio Lloyd Kaufman.

Stanley Lloyd Kaufman nasceu em Nova Iorque em 1945, filho de um advogado, também ele chamado Stanley Lloyd Kaufman. Em jovem, Lloyd não queria fazer filmes. mas quando, ainda na universidade, descobriu o cinema de série B, com o trabalho de Roger Corman, começou-se a interessar pelo cinema.

Rapidamente se propôs, como produtor, para filmes de colegas da faculdade, o que fez com que o seu interesse pelo cinema aumentasse ainda mais.

Esse interesse levou-o a comprar uma câmara que, quando esteve no Chade integrado num projecto de voluntariado humanista, utilizou para um filme, de 15 minutos, de um porco a ser morto.

Quando voltou e mostrou o filme à sua família, percebeu que a crueza daquelas imagens tinha provocado um tremendo choque nos presentes.

Esta reacção da família fê-lo descobrir a força que o elemento choque poderia ter nas audiências duma sala de cinema.

Esse episódio grotesco representa o momento em que nasce o conceito que viria a suportar aquilo que mais tarde iria a ser a Troma Entertainment, fundada em 1974 em parceria com Michael Herz que, ainda hoje, mantém a posição de sócio de Lloyd.

O grande salto da Troma deu-se só em 1984 quando, após Lloyd ler num artigo em Cannes que dizia o cinema de terror já não tinha sucesso, decide precisamente fazer um filme de terror. O resultado foi o The Toxic Avenger (1984), o maior (e único) sucesso da Troma. Foi aliás desse filme que saiu a mascote da produtora, o herói Toxie.

The Toxic Avenger serviu de modelo para criar o conceito daquilo que, mais tarde, se veio a chamar: Filme Troma e, mais do que isso, a descrever um género de cinema que mais cineastas vieram posteriormente a fazer.

The Toxic Avenger

The Toxic Avenger

Mas o que é então isso de Filme Troma?

Um filme Troma é característico pela inspiração no cinema de terrorlow budgetde série B da Hammer e de Roger Corman e pelo exploitation cinemados anos 60 e 70, com um grande elemento choque associado. Daí os filmes serem geralmente catalogados como Shock Exploitation Cinema. Além disso, são principalmente conhecidos pela sua má qualidade técnica associada a outros elementos típicos de low budget, tais como o uso de película velha ou VHS, a repetição de atores, elementos de decoração e guarda-roupa de filmes anteriores e até mesmo a repetição de cenas inteiras de outros filmes (por exemplo, uma cena que mostra a explosão de um carro, filmada para Sgt. Kabukiman N.Y.P.D. em 1990, é usada em muitos outros filmes da Troma sempre que o guião obriga à explosão de um carro). Os temas de terror, sexualidade e violência explícita são recorrentes nos filmes pós Toxic Avenger.

Naturalmente os filmes têm uma grande carga de ridículomas, no fundo, é isso que acaba por constituir a essência de um filme Troma. Ao explorar o ridículo do género e da má qualidade, os filmes de terror, supostamente chocantes, transformam-se simultaneamente em comédias hilariantes, que não se levam demasiado a sério, o que faz deles verdadeiras obras de arte bizarras.

 Filme Troma enquanto conceito aceite que substituiu o que antes se conhecia como Exploitation Cinema ou Grindhouse, foi provavelmente a maior conquista de Lloyd Kaufman como produtor da Troma Entertainment. Ao criar esse rótulo associado a um género (que diga-se, já há muito usado por cineastas como Roger Corman ou Russ Meyer) conseguiu que o nome da sua produtora fosse a referência do cinema trash.

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