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Mientras Duermes (2011)

Imagina-te a chegar a casa ao fim do dia. Estás cansado, o dia foi longo… Ou até podes estar bem-disposto, leve e enérgico. É indiferente. O importante é que estás em casa, porto seguro, lugar de conforto e total liberdade. Aqui a sociedade tem jurisdição limitada; no teu espaço, tu ditas as normas, decides o que é certo, és rei e senhor, tudo controlas. E à noite, luzes apagadas, os raios acobreados dos candeeiros de rua a entrar pelas frestas do estore meio fechado, aconchegado entre os lençóis, debaixo daquele amplexo confortante que faz o peso dos cobertores, estás quente e seguro, feliz como um bebé.

Agora imagina que, debaixo da tua cama, a uns míseros 50 cm de distância do teu corpo mole, relaxado, seguro mas desprotegido, está deitado um homem que não conheces, a controlar não só cada respiração, suspiro ou ronco, como também cada passo que deste.

É esta a premissa do espanhol Alberto Marini, argumentista, e do italiano Jaume Balagueró, realizador, para Mientras Duermes.

César trabalha como porteiro numa vila urbana e, se durante o dia é responsável pela portaria e manutenção do prédio, pela segurança e necessidades dos condóminos, à noite, estende essa responsabilidade e controlo à intimidade dos moradores. Com acesso a cada um dos apartamentos, César vive a braços com um complexo de Deus, vendo os inquilinos como formiguinhas que inspeciona pela lupa e fulmina conforme os seus caprichos.

Mientras Duermes explora um tema que é bastante comum: o regozijo na desgraça alheia. Ou vão-me dizer que não vos é familiar aquele cochicho sobre a desgraçada do 2º esquerdo que o marido abandonou, a solteirona do 5º andar que vive rodeada de gatos, ou se calhar sobre os ricaços do 9º que foram apanhados num desfalque e agora vivem a contar tostões por trás de uma fachada de opulência?

No caso de César, a atitude é levada ao extremo. O porteiro não admite qualquer tipo de alegria alheia e tem um gosto particular pelos dissabores dos outros. Tornou sua a missão de infernizar os que o rodeiam, torná-los miseráveis e cabisbaixos, sem olhares de piedade ou comiseração na direção do pobre porteiro, solteiro e solitário, porque eles têm os seus próprios problemas com que lidar.

E na maioria das vezes é bem-sucedido.

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Mas há sempre um otimista que arruína as estatísticas. Clara é a maior frustração deste missionário da desgraça. Ativa, enérgica, jovial, não se deixa ir abaixo faça César o que fizer, saindo e entrando no prédio sempre com um sorriso nos lábios.

Até que extremo irá o porteiro para apagar esse sorriso?

Com filmes como [Rec], [Rec]2 e Darkness no currículo, Jaume Balgueró pode não ser um veterano do terror mas também não é nenhum amador. Em Mientras Duermes brinca com os contrastes e as personalidades dos antagonistas contaminam o tom e ambiente do filme. É estonteante a facilidade com que passamos de uma cena repleta de luminescência para o cenário mais sombrio possível, o apartamento brilhante de Clara e o quartinho austero de César, o sorriso da rapariga e a sobrancelha carrancuda do porteiro, fazer a rotina matinal ao som de música alegre e viver dia após dia maquinalmente e num silêncio quase absoluto… É uma luta entre bem e mal, a luz e a escuridão, a alegria e o mau-humor pirracento, que obviamente só poderia terminar de forma violenta porque ambos são teimosos e persistentes, fortes e decididos tanto a não abandonar o que os caracteriza como a vergar o outro.

Sem querer retirar o mérito ao restante elenco, o ator Luis Tosar é brilhante e destaca-se ao criar um César anti-heróico mas compreensível, que não emana empatia mas cujas ações não são completamente ilógicas. Tornou quase incensuráveis a atitudes de um stalker, de uma obsessão que resvala a violência, de um alienado que esconde a sua verdadeira natureza por trás de uma máscara de sorrisos educados e comentários politicamente corretos.

Mientras Duermes é, além de um alerta para a dualidade humana, a consciencialização do mal escarninho que reside em cada um de nós. Porque admitamos: quem é que nunca sorriu ao ver alguém cair na rua? E se nos faz sorrir porque não provocá-lo? Há um potencial criminoso em todos nós e são filmes como este que nos permitem explorá-lo sem o risco de consequências reais.

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