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O Céu Existe Mesmo (Heaven Is For Real, 2014)

O céu existe mesmo? Se existe, com certeza, não será numa sala de cinema que exiba este filme.

A franqueza é uma qualidade muito mal apreciada mas há casos em que faz falta: Heaven is for real é mau. Há mesmo a hipótese de os envolvidos na sua concretização não se terem esforçado muito para que fosse minimamente bom.

Provavelmente, com o sucesso mundialmente alcançado pelo livro homónimo, com lugar cativo na lista de best-sellers do New York Times durante 73 semanas consecutivas, Randall Wallace achou que podia desleixar-se, deixar-se ficar à sombra da bananeira ou, neste caso, da capa do livro.

Com pouco mais de hora e meia de duração, uma pessoa sai da sala de cinema profundamente cansada, a bocejar como um miúdo de sete anos depois do sermão do padre na missa de domingo. É o que acontece quando adaptam a técnica de ‘encher chouriços’ para o grande ecrã. Durante 99 longos e tediosos minutos, seguimos Greg Kinnear, um Todd Burpo demasiado (ênfase no demasiado) perturbado, em constantes crises de fé e ataques violentos contra blocos de papel e bancos de igreja, apenas para acabar precisamente onde começámos: sem uma resposta.

Burpo é um eclesiástico norte-americano que, além de felicidade e paz familiar, conquistou o apreço dos paroquianos, vizinhos e da administração da igreja onde exerce. Aparentemente tem tudo a seu favor e, mesmo perante algumas desventuras, exibe um sorriso pleno de empatia e compaixão para com o próximo: um católico exemplar, perfeito. Irreal.

Depois de algumas adversidades económicas, uma perna partida durante um jogo de basebol e pedras nos rins – provações que, com certeza, o colocam no mesmo patamar que Job – o filho mais novo de Burpo, Colton, é vítima de uma doença que o coloca em risco de vida. É aqui que o reverendo finalmente explode, revirando bancos de igreja e gritando impropérios contra Deus.

Pelos vistos o Criador responde bem à violência porque Colton sobrevive e ainda vem com uma experiência surreal e única para contar: visitou o Céu e sentou-se no colo de Jesus.

E pronto, é isto. A história do filme resume-se basicamente a isto. São 99 minutos a seguir os devaneios de Burpo, a negação veemente em que se encerra a sua mulher, e o desagrado e as acusações dos restantes paroquianos que, aparentemente, provêm não de descrédito mas de inveja, afinal “Porque iria Deus gostar mais do teu filho e mostrar-lhe o Céu e permitir-lhe regressar, do que do meu que morreu simplesmente?”.

Porém, por mais limitada que seja a linha narrativa, a verdade é que um bom filme não se faz só pelo enredo. Um bom elenco, dedicado e competente, também é um fator importante. Greg Kinnear é, como já disse, exagerado. Kelly Reilly, a esposa de Burpo, mesmo depois do esforço para nos abstrairmos do facto de que parece uma cenoura com uma dentadura refletora, vai pelo contrário e mostra-se muito pouco convincente, uma performance de amador, muito aquém do que se esperaria. Em relação ao pequeno Colton, mesmo tendo em conta que é uma criança e portanto não devemos exigir-lhe demasiado, é frustrante. Esta geração de pequenos atores tem provado ser de qualidade – Onata Aprile em What Maisie Knew, Aubrey Anderson-Emmons da série Modern Family, Mackenzie Foy em The Conjuring, são apenas alguns exemplos – e, talvez por isso, tornámo-nos um pouco mais exigentes. Connor Corum, na sua tenra idade, não parece partilhar o talento dos colegas. Percebe-se que o casting foi feito com base na sua aparência angelical. O jovem ator não mostra mais expressões além de uma indignação permanente, como se não soubesse muito bem onde está nem o porquê de ali estar.

Portanto, também não é pelo elenco que lá vamos.

O que se salva deste filme, então? Talvez a mensagem que transmite. A verdade é que há propósito na linha narrativa deste filme, na sua ciclicidade e limitação. A questão não é se Deus e o Céu são reais ou não, mas sim se devemos procurar uma resposta. Porque precisamos de uma resposta? “Metade das pessoas quer deixar de sentir e pensar. A outra metade quer o contrário”, é algo que a esposa de Burpo partilha com o reverendo durante a sua luta por um significado para as visões do filho. A fé é uma questão de sentimento e não de raciocínio e é esta a conclusão a que chega Todd Burpo e que Heaven is for real acaba por transmitir.

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