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O Duplo (The Double, 2013)

“Mas era tudo tão estranho, tão incompreensível, tão cruel, tudo se lhe afigurava de tal modo impossível, que toda aquela história lhe parecia inacreditável.”

– Fiódor Dostoievski, “O Duplo”

 Desde o início estamos num sonho Kafkiano. As luzes, o cenário, os rostos hostis. Parece que fomos condenados por um crime que nunca cometemos. O mundo é estranho e trata o nosso anti-herói, Simon James (Jesse Eisenberg) como se ele não existisse. Todo o sistema falha com ele: os elevadores em que entra não andam, as pessoas nunca se recordam do seu nome, e no trabalho nunca é valorizado. Dependendo de quem são e do vosso mood do dia, preparem-se para uma excelente comédia negra ou para uma negritude com piadas.

Richard Ayoade é o realizador desta adaptação do segundo livro de Dostoievski, o mestre absoluto de análises existenciais à frente do seu tempo. O tema de doença mental e alienação para com a sociedade – e para connosco – é uma das imagens de marca do autor barbudo, e “O Duplo” não escapa.

Desde a primeira cena do filme, já de si psicadélica, percebemos que este não é o melhor dos mundos – Simon é tratado como uma persona non grata para onde quer que vá – e que Hannah (Mia Wasikowska) é para ele uma promessa de felicidade futura, ou pelo menos de contacto humano, num mundo completamente hostil e indiferente. Ele obceca com ela, está claro. Persegue-a no escritório onde trabalham – um local escuro, bizarro e impessoal, digno de pesadelo – e olha-a de longe… mas Simon é um tosco sem capacidades sociais, muito menos para o flirt. Para além disso, vivem em prédios um à frente do outro, e ele espia-a pela janela (à lá Janela Indiscreta). Mas se idealizá-la é fácil, falar com ela nem tanto.

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Um dia, Simon James chega ao emprego e é apresentado a um novo empregado chamado… Simon James. Fisicamente, são idênticos. Já em personalidade, são opostos: o “duplo” é carismático, assertivo e confiante, e rapidamente fica popular no escritório. Tem sucesso com mulheres, e concorda em ajudar Simon (o original) a conquistar a sua amada Hannah. Que, claro, se apaixona pelo duplo. A história desenvolve-se sempre entre a comédia e o drama, e a vida de Simon James começa progressivamente a ser roubada, até anulada, pelo presença do seu duplo.

O tom consegue ser muito David Lynch: por um lado empatizamos com a personagem, mas sentimo-nos sempre perdidos num ambiente de sonho-pesadelo onde o impossível é aceite como normal. Todo o filme é uma caricatura da sensação e consequências da alienação (Dostoievski in tha house). E falar sobre alienação desemboca sempre no mesmo insight: queremos ser conhecidos e reconhecidos (não pensamos nisto se a necessidade já estiver satisfeita). O duplo de Simon mostra-lhe a vida que ele poderia ter tido, mas ao mesmo tempo a sua presença impede o Simon original de finalmente ser visto pelos outros.

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Ayaode faz um excelente trabalho de realização: há tantos pormenores no filme que merecem destaque, mas que não poderemos desenvolver, por exemplo o ambiente sufocante do escritório, a iluminação virtuosamente bem trabalhada, ou a banda sonora com momentos ótimos de música industrial/electrónica.

É sabido que Kafka, apesar de ser um neurótico encartado com crises de ansiedade cavalares, escrevia muitos dos seus contos aparentemente negros como forma de entreter os amigos – para se rirem pela noite dentro com o absurdo das histórias. “O Duplo” vive exatamente nesse espaço onde o negro é tão negro e o absurdo tão exagerado, que se torna cómico. É divertido e tenso, surreal e humano, e vale a pena ser visto por toda a sua complexidade. Que o russo sabia escrever já o mundo sabe, e é bom ver uma adaptação que consegue modernizar sem sacrificar. Escrito isto, estamos agora na posição privilegiada de poder atribuir ao filme a prestigiosa medalha de “Comédia a Prozak do Ano”. Os nossos sinceros parabéns.

 

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