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Ressaca de Saltos Altos (Walk of Shame, 2014)

É uma ocorrência rara, bem menos frequente que a passagem do cometa Haley pelos nossos céus, mas, de tempos a tempos, os portugueses acertam nas traduções dos títulos estrangeiros. Ressaca de Saltos Altos é uma escolha extremamente adequada, até porque a única coisa que distingue este filme da série A Ressaca é ter uma mulher como protagonista. Fora isso, é a mesma receita de situações invulgares, personagens caricatas e encontros perigosos numa corrida louca contra o tempo.

Meghan Miles, pivot no noticiário local, não só perdeu a oportunidade de ter o emprego dos seus sonhos, como também sofreu um desgosto amoroso. As amigas decidem que arrastá-la para a farra é a melhor forma de superar a dupla rejeição e, provando mais uma vez que os norte-americanos não aguentam o álcool, Meghan acorda de madrugada na cama de um desconhecido, sem memória da noite anterior. Mal desperta, recebe uma chamada do seu produtor sobre uma última oportunidade para conseguir o tal emprego: tudo o que tem que fazer é estar impecável no estúdio.

Uma vez que ainda é madrugada e Meghan só apresenta o noticiário das cinco da tarde, não faz ideia onde está a carteira ou o telemóvel, nem sequer sabe em que parte da cidade está, e o desconhecido não parece ser um assassino em série, que tal dormir mais umas horas e de manhã, com a cabeça fresca, resolver a questão?

Sim, parece uma decisão lógica e sensata… Mas decisões lógicas e sensatas não fazem filmes.

Sem sabermos muito bem como, exceto que envolve um gato odioso, a pivot acaba na rua, sem carro nem carteira e completamente incontactável. Assim começa a sua jornada de quase oito horas pela cidade, enfrentando uma série de peripécias mais ou menos engraçaditas, para estar no estúdio a tempo e conseguir o tal emprego.

A comédia é uma zona um tanto mais crítica que os restantes géneros cinematográficos. É surpreendentemente frágil a linha que separa o cómico do ridículo ou simplesmente estúpido e muito fácil transpo-la sem ter noção disso.

Fica por esclarecer se Steven Brill se apercebeu de que o fazia quando realizou Movie 43 e Little Nicky, dois dos seus erros mais preocupantes. Mas no que diz respeito a Ressaca de Saltos Altos, Brill esteve constantemente a atravessar e recuar essa linha, dançando na fronteira do levemente cómico e do completamente absurdo.

Elizabeth Banks é uma das atrizes e entertainers femininas mais competentes na área da comédia. Aqui, ainda que seja um dos principais fatores que tornam o filme superável, percebe-se que funcionaria muito melhor sem as restrições do guião (também ele da competência de Steven Brill). Banks é engraçada, tem humor, carisma e inteligência, solta gargalhadas com facilidade… A personagem, Meghan Miles, é que nem tanto.

A menina bem-educada que força um comportamento politicamente correto e conservador só para agradar aos outros, que se apercebe que uma vida sob esses moldes não tem significado e que será muito mais feliz se simplesmente relaxar… Não, não cola. Já ouvimos esta mensagem tantas vezes que se tornou oca.

Oca parece também Meghan e as restantes personagens. Nenhuma delas tem uma personalidade realista, são apenas estereótipos populares dos filmes de entretenimento fácil: o namorado bonito que raramente abre a boca mas aparece no final para salvar o dia, a melhor amiga cheia de garra e comentários sarcásticos, e a amiga burra, que, para não abusar muito dos estereótipos, não é a loira do grupo.

Isto não seria um problema assim tão grande se James Marsden, Gillian Jacobs, Sarah Wright ou qualquer um dos restantes membros do elenco fizesse uso do seu potencial e dessem alguma personalidade às personagens que interpretam. Todos os envolvidos neste filme, parecem terrivelmente desmotivados e, consequentemente, o espectador fica desmotivado.

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