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Trespassing Bergman (2013) – Indielisboa

Alejandro González Iñárritu, realizador de clássicos modernos como Amores Perros, 21 Gramas e Biutiful, olha desconfortavelmente à sua volta. “Se o cinema fosse uma religião, isto é a Meca, ou o Vaticano”, confessa. Mais à frente, sussurra com uma reverência não-irónica um “com a sua licença, senhor Bergman”, enquanto se senta hesitantemente na cadeira do mestre sueco.

Trespassing Bergman é um documentário (ou melhor, um tributo) com uma única missão: recolher o testemunho de figuras marcantes do cinema sobre um nome incontornável da sétima arte, o inigualável Ingmar Bergman. O IndieLisboa traz-nos este filme pouco tempo depois da enorme retroespectiva ao realizador feita no Cinema Nimas – e pela sala bem lotada a assistir a este Trespassing, tudo indica que Bergman continua tão relevante como sempre.

Os cineastas e atores convidados, alguns bastante high profile, estão presentes na qualidade de fãs. Uns simplesmente como admiradores de Ingmar – como é o caso de Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Wes Anderson – e outros numa postura de reverência para com um génio, como Iñárritu, Woody Allen e Ang Lee.

O interesse de Trespassing Bergman está inteiramente nas mãos dos entrevistados, já que não existe nenhum estrutura formal para o filme. Vamos saltando de pessoa em pessoa – ora Coppola, ora Robert De Niro, para Michael Haneke, ou Takeshi Kitano – sem um fio condutor claro. Esta enorme falta de coerência narrativa, onde os entrevistados vão falando e opinando livremente, dá uma sensação hit-or-miss ao filme. Ainda assim, vão aparecendo umas reflexões interessantes pelo caminho, e o ritmo é tão tolerável quanto mais formos fãs de Bergman (talvez por nos identificarmos com os testemunhos).

De todos os grandes nomes presentes, os entrevistados mais cómicos são sem dúvida Woody Allen e Lars Von Trier, por razões completamente diferentes. É delicioso ouvir o nosso clarinetista neurótico contar como foi, muito novo, assistir ao seu primeiro Bergman (Mónica e o Desejo) na esperança de ver mamas, acabando por sair da sala de cinema com mais do que um par de seios na cabeça. Já Lars Von Trier, igual a si, criava sempre uma risada geral do público ao falar simultaneamente do seu amor e desamor por Bergman, relembrando que este havia de “cagar, vomitar e masturbar-se como todos nós”.

Um complemento perfeito para quem viu Liv & Ingmar, este documentário é para aqueles que já vão conquistados. Não é um filme que sirva de introdução à obra de Bergman, antes pelo contrário: parte do pressuposto que quem o vê já conhece a obra do realizador. Nesse sentido, é um filme ainda mais “difícil” do que Liv & Ingmar, já que só valerá a pena o investimento de quem já admire o sueco à partida. Trespassing Bergman é um filme de fãs, para fãs. Se há uma mensagem a reter, é a óbvia: a grande arte vence (quase) sempre o teste do tempo.

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