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Entrevista a Jorge Pelicano, realizador de “Pára-me de Repente o Pensamento” – Doclisboa

Jorge Pelicano é ainda um jovem realizador, mas que parece “velho” tal é a quantidade de prémios. O Jovem da Figueira da Foz cometeu a proeza de, num único dia, ganhar 6 prémios (em dois festivais diferentes). Depois de Ainda há pastores? e Pare, Escute, Olhe chega-nos ao Doclisboa com a estreia mundial de Pará-me de Repente o Pensamento. Que é também a primeira estrofe de um poema de Ângelo de Lima, poeta e “louco” que, mais de um século antes, tinha estado internado no mesmo centro psiquiátrico que Jorge vem agora documentar.

Simpaticamente, aceitou ser entrevistado pelo Cinespoon. Eis o rescaldo de, mais que uma entrevista, dois dedos de conversa em pleno S. Jorge.

Nuno Pereira – Licenciaste-te em Comunicação e Relações Públicas na Guarda. Nesta altura já te imaginavas como Realizador de cinema, ou tinhas outras pretensões?

Jorge Pelicano – Sim, sempre tive o bichinho pelo cinema. Quando era mais novo, costumava ir aos festivas de cinema na Figueira da Foz. Penso que tudo começou quando o meu pai me deu uma camera HI8 sony, talvez tenha sido isso que despoletou a minha vontade de filmar.

“O Documentário em cinema é uma espécie de negação daquilo que eu fazia em televisão.”

NP – Começaste na televisão, fizeste inúmeras reportagens para a Sic. Quais são as diferenças que sentes entre realizar para televisão e para o cinema? O que preferes, Televisão ou cinema?

JP – Comecei na Sic Coimbra a minha carreira na TV, como repórter de Imagem. Ao contrário do que as pessoas possam pensar, ser repórter de imagem, não é um processo meramente técnico. É aí que se afasta de operador de camera. A ideia aqui (repórter de imagem) é contar uma história, utilizando para isso as imagens que captas com a tua camera.

Acima de tudo (Tv e Cinema), são coisas muito diferentes. Nesta altura posso dizer que prefiro o cinema, neste caso o cinema documental. Lembro-me que num período da minha vida, ao fim de semana trabalhava nos meus documentários e durante a semana era repórter de imagem. Mas no fundo, o Documentário em cinema é uma espécie de negação daquilo que eu fazia em televisão. A televisão é mais formatada, tens por exemplo o recurso a voz-off, reportagens. É mais objetiva, com menos espaço para a opinião. No cinema tens mais liberdade. Não é evolução, é apenas diferente. Um repórter não quer necessariamente ser realizador, nem um realizador quer ser jornalista. Enquanto realizador tenho uma outra responsabilidade de fazer outras coisas, contar uma história.

O facto é que enquanto realizadores, se não tivermos o símbolo de nenhum meio de comunicação social, conseguimos chegar muitos mais à frente. Por exemplo, no Páre, Escute, Olhe; aquando da visita de António Mexia a Trás-os-Montes, estava lá com a minha camera e consegui captar algumas conversas mais pessoais. Era mais fácil chegar às pessoas, enquanto os jornalistas tinham que ficar mais atrás. Não lhes era permitido avançar, e nem era essa a sua função. Em televisão o discurso seria mais padronizado. Nesse sentido o documentário aproxima-se mais da verdade, mas só se aproxima.

NP – Tendo tirado um curso não relacionado com o cinema, sentiste a necessidade de ter alguma formação adicional na área?

JP – Muitos Workshops, muita literatura variada, de diversos géneros. É muito importante, aliado à prática, uma extensa reflexão teórica. Para isso, para além de ler muito, é necessário ver filmes, acompanhar retrospetivas. No fundo, tentar compreender as obras dos grandes autores. E eu vou tentando. Da mesma forma que um escritor tem a caneta para escrever a história, nós temos a camera.

“(…)é o desconhecimento que cria inquietação.”

NPAinda há Pastores de 2006 e Pare, escute, olhe de 2009, têm em comum a descentralização para um Portugal Rural. Traço que já se notava nas tuas reportagens. É algo que tu procuras fazer propositadamente? Contares histórias do Portugal Rural?

JP – Sinto uma alteração de filme para filme. Quando comecei a filmar o Ainda Há Pastores, tinha acima de tudo uma grande paixão por filmar, era isso que queria fazer. Em 2006, quando terminei o filme, e com o passar do tempo, fui ganhando novas experiências, que me despertaram cada vez mais o desejo de contar histórias. É curioso porque aqui (Ainda Há Pastores), só senti que tinha filme, depois de o ter lançado.

O facto de os dois primeiros – Ainda há Pastores e Pare, Escute, Olhe – serem no meio mais rural, foi coincidência. Este (Pára-me de Repente o Pensamento) já não é passado nesse meio. O que me interessa para contar uma história, não é o local; é o desconhecimento que cria inquietação.

Ainda Há Pastores (2006)

Ainda Há Pastores (2006)

NP – Com Pare, Escute, Olhe (2009) conseguiste uma proeza: foste premiado 6 vezes no mesmo dia – Prémio Melhor Documentário de Longa Metragem Portuguesa, Melhor Montagem, e Prémio Escolas, no DocLisboa, e Prémio Internacional, Lusófonia e da Juventude, no Cine Eco. Em que medida é que os prémios ajudaram a tua carreira? Mudou alguma coisa depois disso?

JP – Bem, os prémios são bons, porque nos dão mais notoriedade. São o reconhecimento do nosso trabalho. Acabam por gerar mais oportunidades. Nós (realizadores) vivemos muito de balões de oxigénio, e os prémios são um deles.

Pare, Escute, Olhe (2009)

Pare, Escute, Olhe (2009)

“O mais importante para mim é a minha autocrítica”

NP – Até agora, a generalidade das críticas aos teus filmes têm sido positivas. Quão importante é a crítica especializada para ti?

JP – O mais importante para mim é a minha autocrítica. Eu sei que não há filmes perfeitos, mas eu continuo à procura. Ainda não é este (risos). Mas sinto que temos sempre de evoluir mais. Talvez este desejo de procurar a perfeição se deva a minha insegurança.

No entanto, em ralação às críticas, confesso que não ligo muito. Obviamente, quando estás um ano a trabalhar, dás tudo, e depois a crítica é negativa, não gostas. Mas eu tento não dar demasiada importância a isso. Como disse, dou importância acima de tudo à minha autocrítica.

 “(…) eu queria desmistificar algumas coisas. Atualizar o que é a loucura.”

NP – Agora regressas ao Doclisboa com Pára-me de Repente o Pensamento. Que diferenças existem entre esta obra e as tuas anteriores?

JP – Este é o meu primeiro filme a full time. Acrescentei elementos novos na narrativa. Neste caso, um ator (de teatro), o Miguel Borges.

Aliás, isto é um projeto transmídia que tem o Centro Hospitalar Conde de Ferreira como pano de fundo. Daqui sairá um documentário (o meu), um livro, uma exposição fotográfica e uma peça de teatro (do Miguel). São universos trabalhados autonomamente, mas que por vezes se cruzam, como no caso do Miguel que entrou no documentário.

Aqui volto à minha vontade de filmar o desconhecido e de tentar desmistificar alguns mitos. Quando era pequeno ouvia frequentemente “Ou te portas bem ou vais para o Hospital dos malucos”. A verdade é que ninguém sabe muito bem o que vai encontrar lá dentro. E eu queria desmistificar algumas coisas. Atualizar o que é a loucura.

NP –  Falando um pouco do género Doc, sentes que as pessoas ainda veem o Documentário como o parente pobre do cinema? Como algo aborrecido e sem ritmo?

JP – O Problema é a distribuição a nível nacional. Em Lisboa tens muito mais público para ver vários géneros de documentários, em comparação com o resto do país. Por outro lado, falta formação sobre o cinema, não só documental, mas no geral. Não há qualquer formação para as crianças, para que possam ser educadas a ver cinema. Felizmente agora, festivais como o Indie e o Doc, já têm um espaço dedicado às crianças, mas ainda não chega. É difícil, sem ter alguma formação em criança, depois em adulto compreender alguns géneros de filmes, com os quais não fomos familiarizados. Temos de nos entregar ao filme, e isso é algo que se tem de cultivar. Os realizadores também têm de cultivar isso, e não fazer só filmes “fáceis”.

“Lembro-me que quando fui ao cinema ver o “Pare, Escute, Olhe” a Senhora da bilheteira me avisou primeiro “Atenção que isto é um documentário”.

NP –  O Doclisboa tem sempre um espaço dedicado ao cinema português. Na tua opinião, até que ponto é que este festival contribuiu e vai contribuindo para o desenvolvimento do cinema nacional?

JP – O Doc é uma montra gigante para obras que de uma outra maneira não chegariam às pessoas, e onde o realizador português tem oportunidade de se mostrar. O circuito ainda é algo restrito, mas está melhor. E as distribuidoras também perceberam isso. Basta ver as salas do Doc cheias. No entanto, mais uma vez, é uma questão de mentalidade. Lembro-me que quando fui ao cinema ver o “Pare, Escute e Olhe” a Senhora da bilheteira me avisou primeiro “Atenção que isto é um documentário”.

NP–  Planeias algum dia realizar uma longa fora do âmbito do documentário?

JP – Por enquanto ainda não sinto a necessidade da ficção. Gosto muito do registo documental. E ainda existem muitas histórias para contar. Talvez no futuro possa fazer algo híbrido, entre a ficção e o documentário, mas ainda não sei.

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