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Filmes da Minha Vida #3: Serenata à Chuva (Singing in The Rain)

Muitas vezes é perigoso revermos os nossos filmes de infância prediletos à luz da nossa vida adulta. Algo se perde com o passar dos tempos. Afinal aqueles filmes que nos faziam ter dores de barriga de tanto rir quando éramos mais novos, agora nem um pestanejar nos provocam, e muito menos nos fazem mostrar os dentes. Essa passagem dos dentes de leite para os definitivos fazem-nos arrepender de dizer coisas como “O Sylvester Stallone é um bom actor”, ou “O Ace Ventura é um grande filme de comédia”, ou ainda “A Ana Malhoa é uma menina adorável”.

No entanto, chegando à vida adulta existem obras que conseguem ultrapassar essa questão temporal, no fundo são filmes universais e que funcionam em qualquer idade. Serenata à Chuva é um desses filmes.

Certo, reportamo-nos à época dourada de Hollywood, onde Fred Astaire, mesmo calvo, era uma estrela ao lado de Ginger Rodgers, e onde os musicais eram mais que muitos. Sim, é verdade, no entanto, este é diferente.

A história é simples: Don Lockwood (Gene Kelly) era um dos maiores atores do cinema mudo, juntamente com o seu par romântico, Lina Lamont (Jean Hagen), e tudo correria bem nas suas carreiras se Hollywood não estivesse em processo de transição.

Este enredo que se confunde com a realidade explora um pouco a sociedade cinematográfica americana no final da década de 20, onde a exaltação por se estar vivo, após a primeira grande guerra, dá origem a uma emancipação feminina e a uma experimentação desenfreada. Se o objetivo do filme é entreter, estas questões não deixam de ser exploradas, ainda que sempre com muito humor à mistura. Estamos então em 1927 e surge The Jazz Singer, a primeira longa-metragem sonora, que desafiou os outros a fazerem melhor, ou igual.

Foi nesta altura que muitos sucumbiram às contrariedades do som, e é esta necessidade de reinvenção que o filme incute. Quando Don Lockwood encontra Kathy (Debbie Reynolds) num amor à primeira vista assolapado e típico da época, sabemos imediatamente que o filme só pode ser bom, à equipa juntamos o melhor amigo de Don, Cosmo (Donald) e até a maioria das cantorias e danças se tornam agradáveis. Quem não se recorda do “Make ‘Em Laugh” ?

Este é sem dúvidas o derradeiro Feel Good Movie de sempre. Não ganhou um óscar (foi nomeado para dois em 1953), mas não são os óscares que fazem os filmes. Serenata à Chuva tem uma das bandas sonoras mais marcantes do cinema, e tem o trio de protagonistas perfeitos; embora tenha que confessar a minha predileção pela Debbie.

O que ainda mais fascina sobre o filme é conhecer os bastidores: é incrível imaginar que, apesar de Debbie Reynolds odiar Gene Kelly (aparentemente todos o odiavam), porque este a obrigava a ensaiar incessantemente até sangrar dos pés, levando-a à exaustão – a pobre Debbie fartava-se de desmaiar –, quem vê o resultado final, pensa que são todos melhores amigos e que aquilo é fácil, é leve.

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Para parecer que não há trabalho, há que trabalhar muito antes. Esse sentimento de leveza e ausência de esforço, conferem a Serenata à Chuva uma autenticidade que, nem as danças desenfreadas que surgem do nada, conseguem retirar. No fundo tudo se perdoa a um filme destes, porque no final, quem não estiver a sorrir, é porque não tem dentes.

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