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Filmes da Minha Vida #4 Inadaptado (Adaptation, 2002)

Charlie Kaufman, é o homem por trás de alguns dos melhores argumentos das últimas duas décadas (não fossem dele dois dos meus filmes preferidos); Despertar da Mente (onde Jim Carrey fez o papel de sua vida), e este Inadaptado (onde Nicolas Cage tem o seu melhor desempenho de sempre). Em comum o facto de nenhum dos protagonistas ter ganho o óscar pelos seus desempenhos (Jim nem foi nomeado), e o facto de serem ambas personagens que transportam os medos e demónios do próprio argumentista para o grande ecrã. Aliás, em Inadaptado a transposição vem com direito à transcrição direta do nome do argumentista.

Para este Inadaptado, Charlie muniu-se de um realizador que bem conhece: Spike Jonze, com quem colaborou por exemplo em Quem Quer Ser John Malkovich – filme que dá mote à ação desta obra. Confusos? Óptimo. Da parte de quem vos escreve a confusão é tanta, que o difícil é saber como descrever a obra. Por isso talvez seja melhor descrever as sensações que ficam conosco após e durante o filme.

Contextualizando, a ação centra-se em Charlie Kaufman – personagem omnipresente em toda a obra -, enquanto este procura adaptar para o cinema o livro The Orchid Thief da escritora Susan Orlean, que surge no filme pela cara de Meryl Streep (nomeada para o óscar pela sua interpretação).

O que acontece a seguir é, em primeiro lugar, uma masterclass de como escrever um argumento, ao mesmo tempo que acompanhamos os fantasmas de Charlie, um perfeito Nicolas Cage (que também interpreta o irmão gémeo Donald), e que se deixa de “merdas” e representa. A sua angústia exacerbada tem aqui finalmente um bom sítio para escapar.

Sentimos a sua claustrofobia social que nos contorce enquanto o vemos a tentar compor o seu processo criativo, ao mesmo tempo que se tenta integrar no mundo social. O seu alter-ego, representado pelo seu irmão gémeo, é a “borboleta” social que Charlie almeja ser, mas que vive presa no medo do que os outros possam pensar.

Suores frios passam-nos no rosto enquanto tentamos perceber Charlie, à medida que entramos no filme dentro do filme. E aí, para além das orquídeas de Meryl Streep, conhecemos um desdentado Chris Cooper (ganhou o óscar), um perito em plantas que aliena a personagem de Meryl da sua vida mundana e monótona.

Num filme já de si especial que acompanha a duplicidade mental do Sr. Kaufman, junta-se um plot twist que é explicado momentos antes de acontecer. Às tantas perdemo-nos entre duas realidades, a do livro e a da criação do argumento do filme.

A catarse que Charlie procura e encontra durante o processo, revelada através dos seus pensamentos em voz-off, são o fio condutor de uma obra louca que quebra alguns padrões de estrutura cinematográfica, e com uma estética excelente. Spike Jonze realiza na perfeição o filme, provocando-nos sensações semelhantes às dos personagens, um pouco em conformidade com o que fez em Quem Quer Ser John Malkovich.

 No entanto, mais para o fim, esta papa de sarrabulho cinéfila procura ganhar uma espécie de estrutura para se assemelhar a uma película cinematográfica.

Essa estrutura é talvez a parte mais bonita do filme, e por isso aquilo que mais desnecessário seria. A adaptação de que se fala, é muito mais que a adaptação do argumento, é a mutação de Charlie durante o processo criativo. E isso meus amigos, é algo feio, e que ganharia mais querência se se tivesse mantido assim.

Como Robert Mckee (famoso professor de escrita criativa, que dá seminários nos EUA) diz numa altura do filme, enquanto ajuda Charlie: “Um mundo é um lugar feio. E se não tiveres nada feio para contar, então é porque ainda não viveste nada.”

E eis que chegamos à questão que não consigo enfrentar: Porque é que este é um dos filmes da minha vida? Por mais que o veja não consigo perceber. Mas talvez seja porque de alguma forma, em algum momento, todos nós nos privamos de fazer coisas, e utilizamos desculpas esfarrapadas: “ah, se eu quisesse eu tinha boas notas”; “ah se eu me esforçasse, tinha um emprego melhor”; “Se eu quisesse, arranjava um namorado(a) giro(a) em vez de andar a passear a Popota”.

Fugindo ao erro de me armar em Gustavo Santos, ou numa pita do facebook, e tentando escapar aos clichés:

O que nos falta é tomates! E tomates (e orquídeas) é o que encontrarão no desbravar deste filme.

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