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Filmes da Minha Vida #7: Despertar da Mente (Eternal Sunshine of The Spotless Mind: 2004, Michel Gondry)

 “How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d”

Alexander Pope

O filme começa com um acaso. Por acaso Joel (Jim Carrey), afundado numa depressão e monotonia, decide apanhar um comboio. Por acaso nesse comboio está Clementine (Kate Winslet). Que, num outro acaso, decide que seria uma boa ideia falar com Joel.

Foi também o acaso, ou dor de corno, que me levou a este filme. Não me lembro qual foi a situação, nem a data (provavelmente ainda na adolescência, onde toda a dor é terminal), mas a verdade é que cheguei a este “despertar da mente”, e nunca mais parei.

É engraçado perceber que, mais do que a qualidade, o que nos liga ao filme são momentos. Naquele momento eu queria esquecer, e o filme fez-me esse paralelismo. Da mesma forma que eu queria esquecer alguém, ou alguma coisa (a sério, não me lembro), Joel queria esquecer Clementine.

No entanto, será mesmo que queremos apagar da memória aquilo que nos molda, e nos muda? Será que a dor passa só porque a memória esvanece?

É essa, e muitas outras questões que acompanham o processo de Joel no decorrer do filme. No final de contas, quando é que é tarde de mais?

Poderia agora falar da fotografia genial, do argumento soberbo do Charlie Kaufman (Adaptation), das interpretações incríveis do Jim e da Kate, mas não foi por isso que tomei este filme como meu.

Quando gostamos de algo, tomamo-lo como nosso, e achamos que é para sempre. Felizmente o cinema é para sempre. Da mesma forma que eternamente trarei esta obra comigo.

A nuvem que Joel transporta foi e é, a espaços, a nuvem que eu às vezes carrego. Esquecer torna-nos ignorantes, e a ignorância é surpreendentemente confortável, mas não deixa marca. O impacto, por outro lado, não se obtém sem umas boas doses de dores: de corno, de cotovelo, de vida…

Naquela altura tinha todas essas dores, a que juntava a dor de crescimento (física e mental). Naquelas duas horas de filme, eu olhei para mim. Depois, egocentricamente, permaneci a olhar, e procurei respostas. Compreendi algumas questões levantadas pela obra, mas tive de compulsivamente ver mais, à procura de respostas.

No outro dia, e já passados uns anos desde a última vez, revi o filme, e revi as dores, simplesmente encontrei outras perguntas e a ausência das mesmas respostas.

Vivi mais uns anitos, sofri mais um tanto, e pergunto-me: quero apagar alguma coisa da minha memória? A resposta é simples: tirando as derrotas do Benfica, são poucas as coisas que quero apagar.

Assim, Despertar da Mente foi e é o Reflexo de muitas dores, transformadas em catarse cinematográfica. Mais que um filme, é uma experiência psicossomática.

 

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