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Cowspiracy, Veganismo e as Profecias Auto-Confirmatórias

Muito do que está errado no mundo prende-se com o facto de existir muita informação disponível. Como disse recentemente Denzel Washington “If you don’t read the newspaper, you’re uninformed. If you read the newspaper, you’re mis-informed”.Certo? Errado! O Denzel limitou-se (e bem) a citar Mark Twain, mas rapidamente todas as pessoas falaram como se o próprio tivesse tido um momento de inspiração.

Infelizmente, guiamo-nos cegamente por aquilo que soa bem, sem nos preocuparmos em questionar a ideia, e muito menos questionar a fonte. Tudo estaria certo, se esse mal não começasse na comunicação social, nos filmes, nas séries. Baseado em factos reais, de fontes próximas, dizem eles. Depois limitamo-nos a copiar e a colar nas redes sociais. Certo? Errado! Segundo relatórios da ONU de 2015, apenas 3.2 mil milhões de pessoas têm acesso a internet. Sendo que na Europa, 82% das pessoas têm acesso à Internet, ao passo que em Africa, o número desce dramaticamente para 10%.

Aqui, introduzimos o muito badalado Cowspiracy, que chega a dizer que quem não for Vegan, não pode ser ambientalista na sua plenitude. Ora muito bem, estamos logo à partida a falar de uma obra que faz questão de apenas se endereçar a um público maioritariamente branco, de classe média/média alta, com acesso a Internet, e com alguma escolaridade. Parece-me óptimo (tendo em conta que faço parte desse grupo), mas infelizmente, essa é apenas uma muito ténue franja da sociedade, assim como algumas afirmações que são tidas apenas podem fazer sentidos, para esse público muito específico. No entanto, a nossa incapacidade de descentração, coloca-nos logo na situação “isto é tão verdade, mudou a minha vida”.

Desta forma, em 2014, Kip Andersen e Keegan Kuhn, após um bem-sucedido crowdfunding, lançam o documentário Cowspiracy: The Sustainability Secret, passando uma mensagem que, ainda que muito válida em vários aspetos, peca por ser tendenciosa, fundamentalista, e enviesada. O problema de partirmos de um dogma “Ser Vegan é a única solução”, leva-nos a apenas procurar evidências, ou factos, ou pessoas, ou frases, que suportem a nossa visão. E isso meus amigos, toca a todos. Basta vermos a forma desenfreada como se consegue discutir um mesmo jogo de futebol, com vereditos completamente diferentes. Entre a nossa verdade e a dos outros (assim como neste texto), haverá sempre uma premissa que nos torna mais ou menos tendenciosos. Como infelizmente não temos capacidade para ter todo o conhecimento do mundo, apenas nos limitamos a fazer o melhor que sabemos. E o que podemos fazer? Verificar os factos!

Aqui, Cowspiracy cai no erro de apresentar e se sustentar numa investigação, com números que lhes favorecem a causa, mas que estão longe de ser consensuais, sendo que as investigações que têm por base essas estatísticas foram generalizadamente refutadas. Assim, a tese que 51% dos gases de efeitos estufas vêm da indústria agropecuária, está longe de ser verdade. Ainda que não existam estudos “oficiais” para o efeito, devido à dificuldade do cálculo, estima-se que os valores andem na casa dos 14% em emissões diretas (Long Shadow Report, 2013), o que (obviamente) continua a ser muito grave, e a merecer a nossa maior atenção.

Por outro lado, a completa secundarização dos combustíveis fosseis para o efeito estufa, suportando-se de estudos amplamente rejeitados pelas próprias organizações que os levaram a cabo, assim como os péssimos exemplos dados, põe a descoberto o objetivo do documentário: Sensibilizar sem conhecimento de causa pessoas como igual nível de conhecimento, e que não questionem toda a informação que estão a receber. Acho que se chama a isso demagogia, ainda que ingénua e bem-intencionada (à semelhança parcial deste artigo).

Um exemplo desse desconhecimento e segmentação para a população ocidentalizada por parte da obra é o relatório de Harvard Belfer Center (2015) referente às emissões da China por sector. Como podem ver na figura a seguir, aqui o enfase é muito maior na indústria da manufatura e da energia termonuclear como fontes de emissão de gases estufa, por oposição à agricultura, contrastando assim a informação veiculada no documentário e que assenta sempre no oposto.

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Chega-se a afirmar que não se fala mais da questão do gado, e das pescas, por serem questões de elevada sensibilidade política e com um elevado nível de lobbys (o que é verdade). Efetivamente, a exploração não sustentável de solos, conjuntamente com a pesca e exploração ilegal (e legal) de recursos marítimos, e com o crescimento demográfico da população, são tudo assuntos que precisam de maior atenção do que aquela que lhes tem sido dada. O que se esquecem é que continuam a ser as indústrias de petróleo, aquelas que pagam mais luvas para continuar a queimar combustíveis e, se é assim, parece-me também legítimo assumir que as questões políticas também são relevantes aqui. Para além que, para fins deste documentário, apenas a contribuição direta para o efeito estufa foi tida em conta. Esqueceram-se do restante ciclo. Felizmente nós não.

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O documentário refere cerca de 13% como o número de emissões globais, mas esse apenas tem em conta a última fase do processo, como podem ver da figura, a parte em que andamos com o carro (mas como raio é que o combustível foi lá parar?).

Indo ao fundo da questão do Veganismo. A primeira coisa que é preciso perceber é que, se de repente todos nos tornássemos vegans, as terras já desertificadas devido à exploração agrícola, e as florestas devastadas não voltariam por milagre ao estado inicial. Por outro lado, uma exploração sustentável das terras contribui para a fertilidade dos solos e dos ecossistemas. Sendo que isso não invalida que a sobre-exploração não possa existir (porque existe). Infelizmente vivemos num equilíbrio muito ténue, aliás, um equilíbrio profundamente desequilibrado. O que é preciso não esquecer é que, em nenhuma ocasião o fundamentalismo ajudará a tornar os nossos hábitos mais sustentáveis. E existem formas sustentáveis de produzir e comer carne e peixe! Da mesma forma que isso não invalida que também existam formas sustentáveis de ser Vegetariano. A questão é que a mudança não parte simplesmente dos nossos hábitos alimentares, mas da sensibilização para a educação e para a procura de informação. As pessoas têm de ser ensinadas a fazer escolhas desde pequeninas, para que os políticos de amanhã possam endereçar estas questões ambientais não como utopias, mas com medidas concretas para manter a terra habitável. É inevitável que a terra se consuma a si mesma, mas isso tanto pode demorar 50 anos, como 500 anos (isto não é factual!), e acima de tudo depende do nosso poder de pensar a longo prazo.

Dito isto, vejam o documentário, pois levanta questões muito válidas, e muita da informação é bem documentada, mas usem isso sempre como um meio, e nunca como um fim para o radicalismo.

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