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Make Soundtracks Great Again

No outro dia sentei-me na cama, não sei se por rasgo de inspiração, ou por necessidade de procrastinação, e peguei no Volume G-Z do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (sim, aquele grandalhão que fica bem mostrar aos amigos para parecer intelectual). Depois de uma breve passagem pela letra “p” em busca da da entrada pila” e pela letra “r” onde pude encontrar a definição de “rabo”, tive a curiosidade de procurar a definição de “trilha sonora”. Para meu espanto, o Dicionário dizia, ipsis verbis, “Parte sonora de um filme, de uma produção televisiva…= banda sonora”.

Fiquei um bocado parvo. Porque raio a definição de “rabona” era mais extensa do que a referente a “banda sonora”? Porque é que a componente cinematográfica que melhor permite gravar os filmes na história e na cabeça dos espectadores, teria tão pouco destaque?

Será que as pessoas não lhe dão valor? Com essa hipótese em mente, desatei de rasgão a ler coisas. Qual seria a explicação para que aquelas vibrações mecânicas que contraem e dilatam o ar, quando chegam ao ouvido humano têm tanto impacto e um carácter tão vasto? Como é que estas peças musicais imortalizam estes filmes no mundo?

O prolífico Tony Zhou fala-nos um bocado acerca deste fenómeno de imortalização nalguns filmes (como Star Wars e Harry Potter), tentando demonstrar no que grandes companhias, como Marvel, perdem este impacto, jogando pelo seguro. Temp music, ou seja, a reutilização de pedaços musicais de outros filmes, sonoridades que não desafiam a compreensão da cena nem lhe dão densidade são uma escolha segura e fácil. Porém estas escolhas degradam o trabalho do compositor e tornam a banda sonora “esquecível”.

É muito diferente chegar a um barbeiro com uma fotografia do cabelo do Brad Pitt e pedir um corte igual, ou deixar o barbeiro fazer a sua “arte” – confiem em mim, por causa dessa brincadeira, 2012 será um ano que nunca esquecerei. Este pequeno excerto de Zhou indica que falta de originalidade e o boardline plágio, que um compositor é forçado a tomar em prole do projecto onde está inserido é o “cancro” da cinematografia.

Por outro lado, vamos agora submergir-nos em cenas cinematográficas e examinar como é que a banda sonora as eleva e diferencia.

Um dos filmes que gosto sempre de referenciar quando falo de bandas sonoras é sem dúvida o Senhor dos Anéis (e quem foi à Gulbenkian vê-lo orquestrado, pode confirmar).

Esta cena da última instalação da saga Senhor dos Anéis contém uma trilha sonora que desafia o espectador a compreender as suas vibrações naturais e as emoções que alia. É uma trilha que não se sobrepõe ao diálogo, nem é abafado pelo mesmo; não é expectável e articula-se perfeitamente entre os vários planos apresentados.

O mesmo se pode confirmar para este trecho que facilmente podia ser confundido com uma cena homoerótica entre dois anões, com um primeiro anão mais gordo a levantar o segundo, mas que, com esta banda sonora incrível se torna numa cena apoteótica de amizade e de conclusão de uma longa e incrível jornada.

Uma outra ideia que gostaria de atacar é a noção de que uma banda sonora não tem necessariamente que ser uma linda melodia – tomemos o exemplo da banda sonora de Trent Reznor para Gone Girl. Esta trilha não é particularmente considerada de “easy listening” (muito contrastante com a acima referida de Senhor dos Anéis) e não deverá ter suscitado a atenção de imensos espectadores, nem certamente estará no top10 de vendas do ITunes. No entanto, esta trilha transmite perfeitamente a natureza do filme, com os tons mais tranquilos a contrastar com rasgões elétricos, criando uma atmosfera de desconforto.

Não faria sentido largar esta temática das bandas sonoras sem referir o espectacular trabalho de Bernard Hermann, cuja música inspirou muitos compositores actuais. Ouçam com atenção alguns pedaços da trilha sonora do Psycho!

Fica a dica “Prelude”, “Water”, “The Porch” e “The Discovery”, para quem estiver com pressa para os integrais 46min.

On another note, fica uma história bonita:

Antes the Hans Zimmer conhecer o enredo de Interstellar, o realizador Christopher Nolan pediu que escrevesse uma peça de música sobre ser pai. Actuando como agentes de contraste a um filme de ficção como Interstellar, a sonoridade dos órgãos da sua trilha principal relembram serviços religiosos, casamentos, funerais, simbolizando a jornada pela vida partilhada por pai e filho. Este tipo de construção, que foge à norma, complementa o enredo do filme; dá-lhe uma outra vida que não teria de qualquer outra maneira, porque no fundo, no fundo, Interstellar é um filme acerca dos laços entre um pai e a sua filha.

Take a moment to listen!

Não fugindo a Hans Zimmer, peguemos no exemplo de Inception. Um filme onde o tempo, ou a falta dele, toma o papel principal – penso que todos podemos concordar. A trilha principal, Time, deste filme é simples. Em crescendo, cria aquele ambiente de ansiedade e saudade, de que o tempo passa e que não podemos fazer nada contra isso. Ouçam um bocado.

Em jeito de conclusão desta pequena viagem pelo mundo das bandas sonoras, podemos averiguar que existem diversos aspectos que tornam um banda sonora fantástica. Uma banda sonora tem a capacidade de romper barreiras dentro da narrativa do filme. Complementa e melhora a ação.

Tudo depende da natureza do filme. Para a saga Harry Potter não faria sentido uma banda sonora bizarra e eerie, porque as suas melodias são parte que torna a franchise o sucesso que é. Porém, em alguns filmes, esta eeriness é necessária, fulcral.

Será que este texto faz juz à beleza que é a música no cinema? Eu acho que não. Mas isso não quer dizer que não continuarei a procurar respostas e ouvir o que os compositores nos têm a dizer nas suas obras. Continuarei a ouvir e a escrever e tornar o Spoon, semanalmente, um local mais musical.

Até à próxima, a única coisa que peço é para que, na próxima vez que forem ao cinema ouçam com mais atenção. Deixem-se levar pelo aspecto mais dinâmico e flexível da cinematografia – a música.

 

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