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T2 Trainspotting (2017)

“Nostalgia. That’s why you’re here. You’re a tourist in your own youth”

Esta frase é  proferida por Simon “Sick Boy” Williamson a Mark Renton num momento pungente do T2 que captura na perfeição toda a essência da há muito esperada sequela do realizador Danny Boyle. Esta linha de diálogo não só simboliza um dos temas principais no filme, como fala honestamente ao seu público, pessoas agora nos seus 30’s/40.

Em 1996, portanto há 21 anos atrás, Trainspotting não só definiu uma geração como também foi o epítome de uma Grã-Bretanha fixe. O filme estava repleto de hyper visuals, diálogos diretos, honestos, e uma coragem que era raramente vista em filmes naquela altura. E com o dedo do meio bem levantado em direcção ao “sistema” – com a sua tremenda soundtrack no volume máximo, acendeu um foguete debaixo da indústria cinematográfica britânica, reivindicando paixão e inspirando uma nova geração de realizadores da cena indie.

Portanto, com um legado tão pesado para carregar, pode uma sequela sequer sonhar em igualar o impacto cultural que Trainspotting teve, há 20 anos atrás? Para a maior parte das pessoas, a resposta seria não. Mas é igualmente importante que uma sequela desta magnitude não destrua o legado da original.

Se recuarmos atrás no tempo até aos momentos finais do Trainspotting, lembrar-nos-emos do Mark Renton (Ewan McGregor) escolher a vida – roubando o dinheiro dos seus amigos e fugindo. Agora avancemos 20 anos e onde estão eles agora? Bem, o sociopata Francis Begbie (Robert Carlyle) está numa prisão de Edimburgo a cumprir uma pena de 20 anos, por homicídio. Simon ‘Sick Boy’ Williamson (Jonny Lee Miller) ganha a vida explorando e enganando quem quer que seja. Os seus esquemas mais habituais envolvem extorsão, plantação de cannabis e um bordel no primeiro andar do seu novo pub, Port Sunshine, o qual foi herdado. Scruffy Daniel ‘Spud’ Murphy (Ewen Bremner), ainda com o seu coração de ouro inextinguível, luta contra o vício da heroína, “the only friend who didn’t leave me”, tendo perdido a sua mulher e filho no processo. Mark Renton, que de facto escolheu a vida, foi parar a Amesterdão, de modo a começar uma vida nova, longe das tentações e das armadilhas que, com certeza, o esperavam em Edimburgo. Apesar dos diferentes caminhos, o nosso quarteto ainda tem coisas em comum: o seu passado e aquela memória persistente de traição.

T2 Trainspotting é menos punchy e menos ousado do que o seu antecessor. Tem uma natureza mais mainstream e talvez o sintamos mais como uma homenagem, ou do tipo “onde estão aqueles gajos agora”, do que algo novo, por assim dizer. Durante o filme, e por vezes algo desarrumado, vemos referências, flashbacks, que criam como que uma ponte directa até ao original. Algumas são genuinamente comoventes (quando Spud vê um segurança a perseguir um larápio, na mesma rua daquela cena icónica do T1), outras são puramente ameaçadoras (quando Begbie relembra histórias antigas cheias de violência, como aquela do pub, em que ele próprio atira um copo de cerveja acabando este por acertar em cheio na cabeça duma mulher). Como foi dito anteriormente, a nostalgia é um tema muito preponderante no T2. A legião de fãs que esperou 21 anos pela sequela desejará, e esperará, este contacto directo com o orginal, e Boyle sabe muito bem isso. O problema é que o T2 preocupa-se talvez demasiado em dar isso aos fãs, esquecendo-se de dar mais vida e originalidade à história que de facto quer contar.

Mas mesmo com uma pequena falha aqui e acolá, Danny Boyle conseguiu criar uma sequela que é tanto engraçada como amarga. A essência de Edimburgo é também perfeitamente capturada e desempenha um papel importante. Assim como a heterogeneidade do nosso grupo de desajustados. McGregor, Carlyle, Bremner e Miller estão on fire, e todos conseguiram voltar a interiorizar os personagens tão irrepreensivelmente bem, que é de pensar que foi apenas ontem que o original Trainspotting foi filmado – tirando alguns cabelos brancos e uma ruga ou outra… O estilo e o tempo visual do filme, juntamente com os seus cortes rápidos, estão também presentes. O diálogo é tão punchy e aguçado como antes, e a soundtrack – bem, a soundtrack…- é mais uma vez o coração e a alma do filme.

Em termos de argumento, T2 é talvez mais introspectivo, mais instigador e mais fatídico – mais do que o original alguma vez foi, de certa maneira. Os personagens envelheceram significativamente desde que os vimos pela última vez, e esses anos extra vêm acompanhados de tristeza, dificuldades, amarguras e um sentimento de tentativas sucessivas de encontrar o seu sítio num mundo que claramente mudou sem eles – algo que assombra cada cena.

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