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Do Sonho Brasileiro à Vaca Política – 8ª Edição do FESTin

“Politizado” é a palavra que melhor tem descrito o tom do FESTin, sempre bastante crítico do sistema, seja ele político, ou mesmo o de valores, e isso tem sido transversal às diferentes categorias do festival, desde a competição de Longas, até à Mostra Mulheres no Cinema Ibero-Americano – amanhã é dia de FESTinha `17, estamos curiosos!

Quarta-feira, dia 1 de Janeiro a abertura do certame coube ao filme O Outro Lado do Paraíso (2014) de André Ristum, e contou com a Presença do Fernando Emediato – autor do livro homónimo quasi-autobiográfico, e produtor desta obra. Um verdadeiro crowd pleasure (com tudo o que isso tem de bom, e de menos bom).

Com a transição para a ditadura que derrubou o governo de João Goulart em pano de fundo, acompanhamos a infância de Nando, e a procura do sonho “bíblico” de seu pai, em busca do paraíso na terra. Em 1964 e no meio das convulsões sociais a decorrer, decidem então ir de malas e bagagens para Brasília (o tal “paraíso”)… só que não. No meio deste tumulto centramos-nos na história de “coming to age” precoce do jovem Nando (Davi Galdeano), que vai descobrindo o amor, em tempo de guerra. 

Se mete crianças e fala de guerra…bem, é fazer as contas. Para puxar ao sentimento, temos sempre direito aquela música melodramática e à típica fórmula hollywoodesca para lacrimejar. Nada contra. Sim senhor. Mas…acaba por não ir mais longe.

Dito isto, foi uma grande maneira de agarrar o público ao FESTin, e uma simpática experiência cinematográfica, a não ficar a dever nada a hollywood no que toca ao entretenimento.

Ao segundo dia e na competição de longas surge Animal Político, de um jovem realizador oriundo do Recife que se subscreve como “tião”, e com escola de curtas como cartão de visita. Quanto a esta obra, era claramente um “must see”, tendo em conta que o/a personagem principal era literalmente uma…Vaca. Citando uma bonita música da Rua Sésamo: “Tenho orgulho, orgulho, em ser uma Vaca” (Youtubem!!!).

Animal Político é também um conceito criado por Aristóteles, e que fala da Polis, isto é, a tendência natural para a procura da perfeição e do bem melhor – anthropos physei politikon zoon. Algo que vai para além do animal social e das necessidades vitais – que esta vaca capitalista já tinha satisfeitos.

Se o conceito tem milhares de anos, a sua condução aqui é algo inovadora – não pelo tema – mas pelo facto de ser a vaca a procurar o sentido da vida para além do capitalismo, sendo utilizada a sua evolução física e progressivamente mais “humanizada” como metáfora para essa evolução para a Polis.

Infelizmente, e à semelhança da vaca, o tema é demasiado mastigado e torna-se repetitivo o ataque à sociedade de consumo imediato (isto hoje é só referências musicais). Temos também direito a ver “mamas capitalistas”.

No final, a obra perde-se em repetições e ataques demasiados óbvios. Fica a sensação que está algo descolado, mesmo em termos de tom. Parece-nos que teria funcionado melhor se fosse uma curta-metragem – e inicialmente foi pensada assim. Ficamos curiosos na mesma para ver o que “tião” irá fazer a seguir.

Depois veio a irritação, na categoria de Mostra Mulheres no Cinema Ibero-Americano, com o filme Para Ter Onde Ir, de Jorane Castro. Um filme marcadamente feminista, que se esquece numa das principais forças do cinema: a capacidade de passar a mensagem.

A história centra-se em três amigas, demarcadamente diferentes, e a sua viagem em que se tentam descobrir enquanto falam de “gajos” e da “Vida”

Perdoem-nos quem vos escreve se, pela sua condição biológica inata, nasceu homem. No entanto, a verdade é que se a recriação do “gajo” como ser vil e machista é legítima, caí sempre no estereótipo “Margarida Rebelo Pintiano” de “preto ou branco”. Pior, mais irritante do que não saber retratar os homens e as suas idiossincrasia, é a forma vazia como se explora as vidas destas três amigas – a fria, a quente, e a perdida – que durante toda a obra não criam qualquer ligação, ou se percebe se quer o que elas estão lá a fazer. Um filme que se quer cheio, torna-se supérfluo por não conseguir desenvolver nem a história, nem as personagens, nem o feminismo, nem o sexismo.

Com a Amazónia em fundo, acaba por ter a sua força nas imagens, e em alguns (ausência) diálogos. Terminando de uma forma incrivelmente prototípica e cliché, que nada acrescenta à temática defendida pela realizadora.

Bem, mas a procissão vai no adro, ainda há muito festival pela frente e, na altura em que escrevemos o artigo faltava ver o muito aguardado Big Jato de Cláudio Assis, um filme amplamente aplaudido pela crítica e público por onde tem passado.

Para além disso, até agora, o festival tem sido um sucesso e a melhor maneira de celebrar a nossa grande língua portuguesa. Viva o FESTin, e venham mais iniciativas destas!

 

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