Sugestão Para Domingo à Tarde #63: Cyrus (Jay Duplass, Mark Duplass, 2010)

Been in a kind of a dark, existential place, to tell you the truth and then… I met your mum

Podia bem ser o início de uma “mum joke”, mas é antes uma frase de Cyrus, resumindo a obra em toda a sua simplicidade. Uma história existencialista, misturada com uma profunda depressão, e uma dose terrível de realidade e do seu lado negro: a solidão.

Cyrus é um filme sério transvestido de comédia de domingo e isso eleva-o para um patamar superior, com um enorme efeito surpresa.

Na história acompanhamos John (John C. Reilly) um homem de meia idade profundamente solitário que nunca ultrapassou o divórcio com Jamie (Catherine Keener) – que entretanto assume também o papel de única amiga. Até que… conhece Molly (a genial Marisa Tomei), uma linda mulher que surpreendentemente se interessa por John.

Tudo isto seria perfeito se Molly não tivesse um segredo: O filho Cyrus (Jonah Hill), um jovem adulto com uma patológica ansiedade de separação da mãe – quem vos escreve deve admitir que também teria, caso a sua mãe fosse a Marisa Tomei.

Ora isto podia dar para a comédia absurda, para o romance, para a facilidade. No entanto, opta por percorrer o caminho mais difícil: o da compreensão da realidade. Por mais inusitada que sejam as situações, nós conseguimos sempre nos relacionar com aquelas pessoas, retratadas como isso mesmo: pessoas. Abordando temas como a depressão e a solidão, Cyrus consegue a todo o momento tirar a “nuvem negra” que estas temáticas carregam, optando por representar com alguma leveza e naturalidade esta realidade tão dura.

Ninguém se vai desmanchar a rir nesta obra, nem será esse o objetivo. Neste filme quasi-existencialista John interpreta uma espécie de Woody Allen mundano, sem a filosofia, mas com toda a depressão e a exploração do ridículo. Aliás, numa das primeiras cenas do filme, onde John vai a uma festa, assistimos a uma ode ao ridículo das convenções e aquilo que se deve, ou não deve dizer.

Então, porque raio estamos a recomendar este filme para o domingo, ainda por cima no dia do pai? Porque a) podemos; e b) porque o vosso pai também merece qualidade. Que tal hoje optarmos pela qualidade difícil de digerir?

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