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Música a música (Song to Song, 2017)

Depois do muito aclamado The Tree of Life, Malick teve em mãos vários projectos, entre eles Song to Song filmado imediatamente após o Knight of Cups em 2012. Contudo, só agora é que está a ser lançado, como um filme com pouco mais de duas horas, depois de mais de cinco anos de pós-produção e de muito trabalho de edição para tornar esta obra em algo remotamente coerente (como reportado, havia aproximadamente oito horas de fita).

Infelizmente, e como Knight of Cups, Song to Song é demasiado forçado e transmite a sensação de gozo face ao que já conhecemos de Malick: os voice-overs, que parecem murmúrios, demasiado extensivos, que servem de narração da história, sendo que todos os personagens principais o fazem; as deslumbrantes imagens da natureza; e pessoas bem parecidas a andar em círculos e a ser boas e depois más umas para as outras.

O enredo desenvolve-se, como muitos já devem saber, à volta de dois triângulos amorosos que se intersectam, havendo um certo clima que conjuga a obsessão e a traição com a cena musical de Austin, Texas. Mas a música não representa uma parte muito significativa nesta história, o que é pena, porque certamente poderia tê-la elevado.

Música a música é tão abstracto quanto os outros filmes mais antigos e memoráveis de Malick, mas se por um lado estes tinham temas mais tangíveis, ricos ou filosóficos, esta obra é pura masturbação cinematográfica (ao estilo do Knight of Cups). Ao que parece, a jogada do Malick é pegar em algumas das maiores estrelas do cinema actual, como Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender ou Natalie Portman, que sem dúvida atraem multidões, e fazer qualquer coisa minimamente porreira e experimental sob a sua assinatura. Mas nem mesmo estas grandes estrelas conseguem mascarar o vazio do filme. Mara, de todos, é quem tem mais tempo de tela, sendo a única personagem verdadeiramente principal, enquanto que Berenice Marlohe, Holly Hunter, Val Kilmer ou até mesmo Cate Blanchett vêm as suas interpretações reduzidas a cameos. Há pelo menos um momento genuíno, perto do fim, com a participação da personagem de Hunter, mas com a duração de meros segundos: na perspectiva de Malick, as suas emoções não interessam. Prefere mostrar-nos, pela enésima vez, a Mara e o Fassbender a seduzirem-se.

O cinema experimental é, sem dúvida, um estilo do agrado de muita gente, mas quando nos apercebemos que isto é o tipo de projecto experimental mais profundo que Hollywood tem para nos oferecer, e realizado por um aclamado autor, até ficamos nostálgicos, face ao que já foi feito, até pelo próprio realizador. Houve pessoas que consideraram o Knight of Cups  uma obra-prima e provavelmente dirão a mesma coisa acerca deste Song to Song. Há que respeitar as opiniões e é também sinal de que não vemos as coisas pela mesma perspectiva. E isso é bom, é o que dá origem às diferentes críticas. Mas após tudo dito e repetido, continuaremos a admirar e a respeitar o enorme Terrence Malick. Sendo que uma grande parte dos aficionados, incluindo quem vos escreve, terão os seus trabalhos anteriores muito mais em conta, numa altura em que ele realmente tinha algo para dizer e partilhar. Agora vemo-lo como alguém que pode fazer o que lhe apetece, a seu belo prazer, sendo que é muito mais interessante quando expande o seu imaginário em algo que possamos realmente ter em conta e ficar de boca aberta.

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