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Teles – Cortex

Criticar é sempre um acto de coragem. As mães criticam os filhos e batem neles, mas só os filhos corajosos têm a capacidade de criticar e bater nos pais (metaforicamente). O que se viu neste festival Cortex, foi um enxerto de porrada nos pais do cinema Português. A idade não é um estatuto por si só, a qualidade deve ser merecida. Se não existe, um pontapé na boca metafórico é o que é preciso. Assim, as escolhas da colher para a melhor curta Portuguesa, são um round house kick às produções com assinatura famosa, mas sem qualidade.

O júri do festival decidiu seguir o mesmo caminho do spoon, mas optou por outra obra (também muito boa). No entanto, o prémio Dark side of the spoon de melhor curta Portuguesa vai para Teles, de José Magro (o prémio é um croquete que será em breve enviado para o porto).

Teles começa por ter a sinopse maior e mais incisiva do Festival. “Teles é marcador de linhas do União Sport Clube de Baltar”. Certo é que tão curta sinopse só aumentou a magnitude da surpresa. A qualidade deste filme é inversamente proporcional ao tamanho da descrição.

Como é óbvio, a curta-doc centra-se na vida de um solitário “faz tudo” daquele clube de futebol, o Sr. Teles. O tom deste documentário é bipartido. Realça gargalhadas, mas acaba por nos deixar sempre alguma sensação de tristeza. Teles retracta a vida de um homem perfeitamente abandonado pela vida, que ainda assim tenta mostrar-se feliz. Apesar de todo o gozo e desdém que vive à sua volta. Nesse sentido, o que faz resultar a curta é o one man show Teles, que vai tendo tiradas muito engraçadas.

Outro dos méritos da curta é a fotografia. O cuidado visual que se presencia, é já de um profissional.

Todavia, desafios e questões permanecem por responder. Um doc vive muito daquilo que se pretende documentar. A personagem, associada à parte visual, chega para fazer funcionar o filme. O desafio será passar para a ficção e focar-se mais na história, criando o dinamismo suficiente para fazer resultar algo que é mais pensado e menos espontâneo.

O talento parece estar cá. Todavia, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” (tio do Peter Parker). O futuro mostrará se ele confirma as expectativas.

Veredicto: Portugal está vivo e tem qualidade. No entanto, “the revolution will not be televised“(Gil Scott-Heron).

O spoon escolheu também a melhor curta estrangeira (Aquel no era yo, de Esteban Crespo). O prémio é uma batata-doce de conserva e será enviado para Espanha. Como menção honrosa e sem prémio (ele que divida o croquete com o amigo José Magro), Fontelonga de Luís Costa. Estas duas curtas terão a crítica no Facebook da colher.

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