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China – Um Toque de Pecado (Tian zhu ding, 2013)

O comentário social vive de um olhar “de dentro” ou “de fora”, com intimidade ou distanciamento. Se lemos o sistema de fora, o conjunto sobressai e ultrapassa o indivíduo: focamo-nos no todo para conhecermos a parte. Se “de dentro”, temos o inverso – a pessoa espelha o todo, e vivemos o conjunto através dos olhos de quem lá pertence. A última opção é sempre aquela que nos força a contar histórias.

Nesta que é a décima longa-metragem de Zhangke Jia, nomeada para a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes de 2013, China é acima de tudo um conjunto de histórias. Quatro histórias, para ser exacto.

Filme feito de ambientes e silêncios, somos constantemente colocados na posição do impotente, do perdido e do sozinho. Embora as narrativas não tenham uma ligação formal (as personagens e acontecimentos nunca se cruzam), todas elas lidam com o tema da fragilidade e as suas possíveis reacções. A primeira história que seguimos é a de um homem, Dahai, num ambiente de homicídios, fugitivos e subornos – numa palavra, um ambiente de “pecado”. “Não há justiça”, diz indignado. É talvez o mote do filme, ou pelo menos o ponto de partida (e de chegada?) das várias personagens.

Impotentes face à sua realidade, recorrem à violência não como solução – já parece tarde para isso – mas como reacção. Para um filme que começa, continua e acaba sem qualquer sinal de justiça, é válido perguntarmo-nos se existe sequer espaço, ou sentido, para uma palavra como “pecado”.

Todas as personagens estão alienadas, encurraladas na claustrofobia de um sistema que não as ouve. Mais do que o que é dito, está presente no filme aquilo que as personagens não querem, ou não conseguem, dizer. E aquilo de que não se fala acaba muitas vezes por ser expresso pela violência, para com os outros e para consigo mesmo. É que num mundo alienante, sem justiça nem (noção de) pecado, é fácil sucumbir. E se a violência física é a linguagem comum do filme, é a psicológica que explica toda a restante.

Um pormenor interessante são os animais que aparecem em destaque durante as várias narrativas. É possível que exista um simbolismo específico para cada um, coisa que facilmente nos ultrapassará como ocidentais. No entanto, a metáfora torna-se mais simples e directa quando notamos que esses animais aparecem recorrentemente presos, mortos ou maltratados.

Fernando Pessoa escreveu que “o homem é um animal irracional, exactamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, o homem é um animal irracional complexo”. E como o filme mostra, a nossa condição implica muitas vezes consequências simples para angústias complexas. “Compreendes o teu pecado?”, perguntam no final. A não-verbalidade da personagem responde: eu não compreendo absolutamente nada.

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