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The Americans – Balanço da temporada 1 e início da 2

Já foi encomendada uma nova fornada de The Americans. O canal FX pediu 13 episódios para a 3ª temporada da série de espionagem.

Passado nos anos 80, pouco depois de Ronald Reagan ser eleito presidente, o drama explora o conflito político entre EUA e URSS, seguindo um par de agentes soviéticos infiltrados como um casal comum em terreno norte-americano.

“O quê, não acreditas?”

“Espiões supersecretos a viver na porta ao lado, parecem-se connosco e até falam inglês melhor que nós? Parece que não estão autorizados a dizer uma só palavra em russo a partir do momento em que cá chegam… Quer dizer, por favor! Alguém anda a ler demasiados romances de espionagem”. A dúvida foi colocada logo no primeiro episódio por um dos agentes do serviço de contra-espionagem norte-americano. Se até os especialistas se mostram céticos, como é que nós, meros espetadores, podemos acreditar na hipótese?

Mas sim, é verdade. Matthew Rhys e Keri Russel são Phillip e Elizabeth Jennings – Mischa e Nadezhda, numa vida anterior, há muito esquecida – dois dos muitos espiões soviéticos que residem insuspeitos entre os cidadãos norte-americanos. Sempre alertas à hipótese de serem desmascarados, a tensão aumenta com a chegada à vizinhança de Stan (Noah Emmerich) que, por pura coincidência, é um agente do departamento de contra-espionagem do FBI.

Aqui a dupla de protagonistas - Keri Russell e Matthew Rhys. The Americans é considerada por muitos como uma das melhores séries do ano transato.

Aqui a dupla de protagonistas – Keri Russell e Matthew Rhys. The Americans é considerada por muitos como uma das melhores séries do ano transato. Já foi nomeada para 2 emmys.

Joseph Weisberg, depois do trabalho em Falling Skies e Damages, conta-nos uma história de multiplicidade e perfídia, em que ninguém é de confiança e todos os motivos são suspeitos.

Além do extensamente debatido e tedioso conflito passivo-agressivo entre os soviéticos e os EUA, a série abre-nos portas para um aspeto mais humano da espionagem. E ainda bem porque, de outra forma, não haveria motivo para acompanhar The Americans.

O tema não é propriamente uma novidade. Alias, Graceland, Homeland, e mais outras tantas, focam os mesmos temas: conflitos políticos e armados, espionagem e agentes infiltrados, teorias da conspiração, agendas e motivos encobertos, desconfiança nas agências secretas e no próprio governo. E sim, é certo que todos adoramos fazer de detetive de vez em quando, mas o que é demais por vezes enjoa.

O que separa The Americans do resto é a complexidade da mentira em volta da qual gira toda a história, quase como se estivéssemos também a ser enganados ou a assistir a duas séries ao mesmo tempo. De um lado está a espionagem e a ação, onde existem Mischa e Nadezhda contra os americanos e, do outro, o drama que envolve a rotina familiar de Phillip e Elizabeth, repleta de segredos e potenciais traições e desilusões.

O casamento de Phillip e Elizabeth foi arranjado e começou com uma mentira. Mas agora, quase 15 anos depois, têm dois filhos por quem os sentimentos são bem reais e que nada sabem sobre a verdadeira identidade dos pais. Phillip e Elizabeth viveram também durante mais de uma década nos EUA, seguiram as suas tradições e costumes, habituaram-se à sua música, televisão, língua, comida, cantaram o hino e apoiaram as equipas nacionais, adaptaram-se ao modo de vida americano. E, em contrapartida, forçaram-se a abandonar as memórias e ligações que tinham com a Mãe-Rússia. Mas claro, todos os dias contactam com cidadãos norte-americanos que os tratam como pares, sem qualquer ódio ou discriminação, e por quem acabam por sentir empatia.

É impossível que não se sintam divididos. Forçados a abandonarem-se a si mesmos, a serem outras pessoas, há, além das pressões exteriores, uma luta interna incapaz de ser suprimida entre quem foram em tempos e quem fingem ser agora. Quem será o verdadeiro: Phillip ou Mischa; Elizabeth ou Nadezhda? A quem devem lealdade: ao país onde nasceram ou àquele onde se recriaram? Onde está a hostilidade e quem é realmente o inimigo?

E que reações esperar daqueles com quem convivem se algum dia descobrirem a verdade? Vê-los-iam da mesma forma ou sentir-se-iam traídos?

Para todos os efeitos, os filhos do casal Jennings, Paige (Holly Taylor) e Henry (Keidrich Sellati), são americanos, não conheceram nenhuma outra vida que não a que levam, nenhum outro país que não aquele onde vivem. O crescente interesse nos segredos que os pais escondem está a aproximá-los da verdade e, consequentemente, de um mais que possível desmoronamento de tudo o que julgavam seguro. Como reagir quando tudo o que conhecemos como certo, a nossa família mais próxima, é fruto de uma mentira? O sentimento que nutrem por nós é verdadeiro, ou não passou de algo fabricado para dar maior credibilidade ao disfarce? Que perigos enfrentamos como parte desta mentira? A quem devemos maior lealdade, ao nosso país, ou aos nossos pais? O que é mais importante: o bem maior ou o que nos afeta diretamente; o patriotismo ou o amor?

Esta é a principal questão que se levanta ao longo da série, presente em praticamente todas as interações de relevo. Não só Phillip e Elizabeth, como também Stan, o agente do FBI que se apaixona por uma agente dupla; Nina Sergeevna, a agente dupla de tal forma competente que chegamos a ter dificuldade em dizer com certeza de que lado estará; e os vários agentes e informadores que se cruzam nos seus caminhos e têm que escolher entre trair o seu país, a instituição que aprenderam a entender como sua defensora, e a vida, o amor, os seus ideais… De uma forma simplista mas não menos profunda: trair o país ou traírem-se a si mesmos.

Mais que as cenas de ação ou o suspense da trama de espionagem, o que nos excita o pensamento e mantém seguros a The Americans é esta questão, é a ânsia perante a multiplicidade de respostas que existem para esta pergunta complexa e tudo menos absoluta.

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