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Je m’appelle Hmmm… (2013) – IndieLisboa 2014

Toda a comunicação está fragmentada. Os poucos diálogos honestos são monólogos ao espelho, conversas com objectos inanimados, ou ainda com personagens que não entendem a língua do emissor. Os momentos mais fortes do filme vêm muitas vezes na forma de expressões faciais, fixas e sem vida, ou com a vida toda por sair. O rosto inerte serve de fotografia onde projectamos (que é como quem diz, imaginamos) emoções, expressões de raiva e tristeza, movimentos bruscos por acontecer. E ela chama-se “Hmmm”, porque quer esconder quem é, ou quem foi.
Após algumas colaborações com o enfant terrible Harmony Korine, chegou a vez de Agnès Troublé se estrear como realizadora. Troublé, francesa de 73 anos, assina como “agnès b.” e é hoje uma das maiores designers de moda do mundo. Durante anos serviu de mecenas da sétima arte, financiando obras como o poderosíssimo Irreversível de Gaspar Noé. Agora, Agnès começa a sua carreira cinematográfica directamente no topo dos taboos sociais – o abuso sexual de menores. Incestuoso, neste caso. Se há tema perfeito para contrastar palavra e silêncio, o dito e o por dizer, é este.
Céline (Lou-Lelia Demerliac) tem 11 anos e um segredo que só a sua boneca Barbie pode ouvir. A mãe (Sylvie Testud) passa o seu tempo a trabalhar para sustentar uma família de cinco: Céline, os seus dois irmãos mais novos, e o pai desempregado (Jacques Bonnaffe). Ninguém suspeita daquilo que o pai faz a Céline. “Vamos subir?”, pergunta, e ela acede. Num único plano, escuro e sem palavras, percebemos aquilo que se passa e que não se pode saber. Céline escreve no braço “um dia irei fugir”.

Aquilo que nos move, que nos atrai, é muitas vezes aquilo que, por alguma razão, nos era inacessível. A vida não-vivida, com sorte por viver. Céline aproveita a primeira hipótese que tem para fugir: entra sorrateiramente na camioneta de um escocês, Peter (Douglas Gordon), e faz-se à estrada com ele. Quando este se apercebe da sua companheira de viagem, suspira e continua a conduzir. Não pára nem entrega a rapariga, simplesmente continua. Peter é a vida não-vivida, por viver, de Céline: a viagem para longe dos horrores de casa. E percebemos cedo que Céline é a vida que Peter tinha e quer recuperar: embora mal se entendam por palavras, o camionista aponta para a foto de uma mulher e criança e diz “mortas”. Fica estabelecido um pacto silencioso.
As cenas mais belas do filme são as desta viagem. “Nada atrás de mim, tudo à minha frente, como sempre acontece na estrada”, como escreveu Kerouac. Os pais de Céline querem-na de volta, a polícia procura-a, mas eles estão a viver o que lhes foi roubado. Ela nunca revela o seu nome verdadeiro a Peter: até ao fim do filme, diz-se chamar “Hmmm”. Não ter nome é não estar definido, que é exactamente aquilo que Céline precisa.
Je m’appelle Hmmm… é a polaridade oposta da obra-prima de Takeshi Kitano, O Verão de Kikujiro (1999). N’O Verão, uma criança foge com um estranho e viaja longamente em busca da mãe que nunca conheceu. Em Je m’apelle, a criança faz exactamente o mesmo de modo a fugir do pai. O mesmo movimento, objectivos opostos. Há cenas tão parecidas entre os dois filmes – como as das personagens na praia – que ou é por influência directa ou, como de costume, os extremos acabam por se tocar. Em ambos, há comédia no desastre e ternura na tragédia. São ambos filmes sobre o silêncio, ser jovem e querer mais.

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Agnès Troublé agarra o tema com coragem, e tende a adorná-lo visualmente (já que as palavras pouco comunicam). Existem passagens experimentais, personagens secundárias bizarras e gravações em baixa resolução. Mas o destaque vai para Lou-Lélia Demerliac, a jovem Céline, que faz brilhantemente o seu papel de criança presa entre um passado doloroso e um futuro incerto. O final do filme, por muito cínico que soe, ganha por manter o real presente – quem vive num sonho tem sempre os dias contados.
Dizem as más línguas que o filme nunca teria conseguido lugar nos principais festivais de cinema se não fosse pelo estatuto da realizadora no mundo da moda. Embora o comentário possa ter alguma verdade, é venenoso por tirar mérito a um bom filme, excelente para primeiro da artista. Já dizia João César Monteiro: “eu quero é que as más línguas se fodam”. Por cá, é um dos preferidos para vencedor da Competição Internacional do Indie Lisboa. E merece.

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Anexo: o Indie Lisboa convidou Agnès Troublé para apresentar este filme, no passado dia 27 de Maio, na Culturgest. Foi com alguma tristeza que vimos a realizadora perante uma sala nem meio-cheia, e a “conversa informal” planeada para depois da visualização foi cancelada por falta de público. Vimos recentemente um caso semelhante, talvez ainda mais inesperado, na Festa do Cinema Italiano: Vittorio Storaro – talvez o director de fotografia (vivo) mais importante do mundo – deu uma masterclass no Cinema São Jorge, com entrada gratuita, para pouco mais de trinta pessoas. É sempre difícil assistir a boas oportunidades mal aproveitadas, principalmente em época de crise generalizada. Aqui no CineSpoon gostaríamos de apelar aos nossos leitores para que continuem atentos às iniciativas que nos rodeiam e que, infelizmente, passam despercebidas.
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