Noah_Russell_Crowe

Noé (Noah, 2014)

Em Aronosfky, estávamos habituados a saber mais ou menos com o que contar: intensos dramas psicológicos, relações humanas complexas, retratos fiéis dos lados obscuros do ser humano e das suas emoções mais fortes. Noé (2014) vem rebentar com as ideias fixas que tínhamos colado à imagem do realizador de A Vida não é um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010). Se por um lado pode ser limitador dizermos que determinado filme é típico de um realizador, por outro, essa mesma designação pode significar lisonja e destaque. Noé não é, de todo, o típico filme de Darren Aronofsky. E saímos da sala a desejar que fosse.

O filme conta-nos a história de Noé, numa versão que corresponde mais às perspetivas do realizador do que aos fatos tal e qual como são relatados nos textos bíblicos. E, apesar de este fator poder desiludir ligeiramente os espetadores mais religiosos, a atmosfera e abordagem marcadamente comerciais do filme dão a volta por cima, encontrando rapidamente uma forma de apelar às massas: o espetador religioso fica satisfeito com as representações dos sete dias da Criação, o amante do género Fantástico salta na cadeira ao ver gigantes de pedra que lembram os Ents em Senhor dos Anéis e há ainda espaço para uma pequena história de amor que fará brilhar os olhos das meninas mais sensíveis.

Blockbuster ou não, o filme ressuscita a história bíblica do dilúvio e de como o Criador dá uma nova oportunidade à Humanidade: Noé (Russell Crowe) é o herói escolhido para fazer a separação entre o sagrado e o profano, salvando todos os animais da Terra numa grande arca e deixando de fora os homens, destinando-os à morte. A sua família e os anjos guardiões, agora transformados em gigantes de pedra, ajudam na construção da grande arca e na luta contra Tubal-Cain (Ray Winstone), o clássico inimigo que vem dificultar a missão de Noé. O filme ganha algum interesse ao longo da segunda parte quando, a pretexto da gravidez de Illa (Emma Watson), sua protegida, Noé se transforma num anti-herói quase psicótico e evidentemente destrutivo. Aqui temos, finalmente, umas nuances (ainda que muito ligeiras) da intensidade psicológica que é tão caraterística em Aronofsky.

O filme prossegue num ritmo que entretém mas não surpreende. Os efeitos especiais não fogem daquilo que seria expectável e, visualmente, é puramente comercial, não havendo grande espaço para filmagens realmente criativas, à exceção da sequência dos sete dias da criação; da história de Caim e Abel, apresentada em silhuetas e cores que quase nos fazem lembrar um filme de animação; e da cena em que os animais se dirigem à arca, em que pudemos observar uma energética viagem em stop-motion sobre as paisagens da Islândia.

 Apesar de contar com um elenco privilegiado, Noé (2014) não deu grande espaço para atuações à altura. Russell Crowe na pele de Noé dá-nos a impressão de um herói que já vimos em Gladiador (2000), ou Robin Hood (2010) e Anthony Hopkins, no papel do velho sábio Methuselah, não tem qualquer impacto ou destaque. O mesmo acontece com Jennifer Connelly, na sua interpretação de Naameh, a mulher de Noah, que apenas em breves momentos tem a oportunidade de mostrar o que vale como atriz. Emma Watson é quem acaba por merecer alguma distinção, por começar a desapegar-se de Hermione (já o tinha vindo a fazer, por exemplo, em As Vantagens de Ser Invisível, de 2012), revelando alguma evolução.

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