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The Holy Mountain (1973) – Alejandro Jodorowsky: Surrealismo, Misticismo e Transcendência

“The Holy Mountain” é o terceiro filme do realizador chileno, Alejandro Jodorowsky.

Os filmes que fez antes, “Fando e Lis” (1968) e “El Topo” (1970) (o último tido como um clássico de culto), já eram considerados bizarros e originais, mas é em The Holy Mountain que o realizador consegue chegar a um nível tal de estranheza que se pode considerar que a obra é única no seu género.

Ao início pode-se achar o filme estranho e ilógico, mas é precisamente essa estranheza que o torna tão interessante. As imagens são perfeitamente simétricas, cativantes e hipnotizantes, todas as cores são vivas e fortes e as situações são tão estranhas que quase chegam a ser sacrílegas. Cada plano surge-nos como um quadro repleto de referências e de simbolismos, o que torna difícil a sua interpretação mas faz com que o filme seja um espetáculo visual inigualável. Todo o filme transpira misticismo, esoterismo e espiritualidade. Resumindo-o numa palavra: Transcendência.

Só o nome do filme chega para nos remeter à ideia de transcendência, uma vez que a Montanha Sagrada é um símbolo quasi-universal de transcendência, simbolizando a ascensão ao divino, tema que o filme aborda intimamente ao longo de toda a sua duração. O filme é, aliás, uma adaptação não oficial de duas obras literárias: “Mount Analogue” deRené Daumal e “Subida del Monte Carmelo”, um tratado espiritual escrito no século XVI pelo poeta e místico católico San Juan de la Cruz. Ambos os livros são trabalhos alegóricos sobre a subida de uma montanha, enquanto forma de ascensão espiritual.

Apesar das suas características surrealistas aparentemente absurdas, The Holy Mountain apresenta uma linha narrativa mais ou menos linear, sendo até possível separá-la em três partes/atos:

A primeira parte apresenta-nos o protagonista, conhecido apenas como “The Thief”, uma adaptação do personagem da carta de tarot “The Fool” (O elemento tarot aparece sempre muito presente durante todo o filme, servindo de inspiração e de modelo para muitas das situações surrealistas, para a concepção dos decors e construção das personagens). Conhecemo-lo na pior das condições, desmaiado e bêbado nos subúrbios de uma cidade sul-americana com a cara coberta de moscas (fazendo imediatamente referência ao filme “Un Chien Andalou” de Louis Buñuel). Aqui, tal como no filme de Buñuel, usa-se a violência (à partida ilógica e absurda) de elementos não relacionados diretamente com a narrativa do filme, para transmitir uma emoção de confusão/nojo ao espectador, neste caso, preparando-o para o que virá depois.

Após algumas peripécias na cidade, que incluem uma crucificação do protagonista por um bando de crianças com a genitália pintada de verde e uma encenação da conquista da América do Sul pelos espanhóis interpretada por iguanas e sapos, o protagonista encontra uma torre no meio de uma avenida movimentada de onde desce um anzol dourado com dinheiro e comida para os pobres. Mal o anzol começa a subir, o protagonista sobe para ele até chegar ao topo da torre onde o espera um novo personagem: O Alquimista, interpretado pelo próprio Jodorowsky. Os dois lutam até que o Alquimista o reconhece como seu discípulo e dá início à uma série de rituais.

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A meu ver é aí que começa a segunda parte do filme. Os rituais, que contêm todo o tipo de alusões espirituais, religiosas e mágicas, visam transformar o protagonista, inicialmente tido como um ladrão que deambula aleatoriamente pelas ruas da cidade, em algo mais, aproximando-o do alquimista, ou seja, de Deus. Neste caso, e usando as próprias palavras do Alquimista quando a transformação do ladrão está completa: “To know; to Dare; to Want; to be Silent”, recebemos em forma de palavras e de objectos (cada palavra está associada a um artefacto distinto) a confirmação de que a transformação está completa – cada uma das palavras representando cada um dos rituais pelos quais o protagonista acabou de passar, surgindo no final como um homem transformado vestindo a mesma roupa que o Alquimista.

É neste ponto que é mais óbvio o trabalho da Identidade por parte do Realizador. A transformação do protagonista, aqui retratada de forma tão cuidada, representa, segundo a teoria da viagem do herói de Chris Vogler, o passo “Crossing the Threshold” tendo o Alquimista como Mentor e o ladrão como herói. Através dessa associação a uma teoria normalmente associada ao cinema mainstream comercial, Jodorowsky consegue que o seu filme, à primeira vista tido como um filme de difícil compreensão, tenha características que lhe dão uma camada superficial de compreensão que permite que o espectador se identifique com o ladrão. Mais tarde veremos como a criação de várias camadas de interpretação do filme permite que o filme seja tão profundo.

Numa terceira parte, o Alquimista revela ao Ladrão o objectivo e a razão de todos os rituais: descobrir a montanha sagrada e tomar o lugar dos deuses imortais que lá se encontram para aí, poder ele conseguir a imortalidade. Mas não é uma tarefa que o Ladrão possa fazer sozinho. Para o ajudar surgem mais personagens, todos em busca de algum tipo de purificação espiritual na montanha sagrada. Os novos personagens são estereótipos das piores pessoas que podem existir e cada um deles é representado por um planeta diferente do sistema solar. A mulher de Marte por exemplo é traficante de armas e constrói todo o tipo de artes mortíferas. O homem de Urano por exemplo é conselheiro financeiro do governador e propõe que se elimine parte da população para salvar a economia nacional. Desta forma, Jodorowsky consegue dar ainda mais valor e credibilidade aos rituais de transição, uma vez que todos os personagens abdicam de tudo o que tinham (e alguns tinham muito) para se tornarem como “páginas em branco” para poderem prosseguir na viagem para a Montanha Sagrada.

Assim, o ladrão segue na viagem para a montanha sagrada com o Alquimista e os outros personagens fazendo um total de nove pessoas, dado que é repetido muitas vezes e que pode ser justificado pelo potencial simbólico do número (muitas das cenas do filme são compostas à volta do número três e do triângulo equilátero, que simboliza a tríade e que é usado por inúmeras religiões (por exemplo o Pai, Filho e Espírito Santo na religião Católica, ora 9 = 3 x 3).

Neste ponto o filme atinge um nível diferente do resto, adoptando um discurso quase documental, penso que esta escolha reforça a componente espiritual que os personagens estão a viver. Já não existe muita concepção do decór e as cenas são filmadas maioritariamente em ambientes exteriores. Aqui volta a ser retomada a questão da identidade pois, para poderem atingir o seu objectivo: a imortalidade, os personagens têm que ir deixando para trás a sua própria identidade, fazendo com que o grupo se torne num único ser vivo que pensa e age como um só. Todos os personagens passam a vestir a mesma roupa e rapam os cabelos, fazendo com que seja difícil identificar cada um dos personagens isoladamente, mas é mesmo esse o objectivo. Segundo Jodorowsky (digo isto pois creio que ele próprio é o Alquimista na realidade) só se pode atingir o equilíbrio, deixando para trás todos os nossos restos de identidade, ou seja, vontades, desejos e medos.

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Quando finalmente atingem o topo da montanha sagrada descobrem que os deuses imortais não passam de bonecos de plástico, o que cria um certo anticlímax no filme, mas tudo é rapidamente explicado por Jodorowsky enquanto se senta no centro da mesa e diz a linha de diálogo que melhor explica todo o resto do filme:

“I promissed you a great secret, and I will not disappoint you. Is this the end of our adventure? Nothing has an end. We came in search of the secret of immortality. To be like gods. And here we are… Mortals. More human than ever. If we have not obtained immortality, at least we have obtained reality. We began in a fairytale and we came to life! But is this life reality? No. It is a film! Zoom back camera!

We are images, dreams, photographs. We must not stay here! Prisioners! We shall break the illusion. This is Maya. Goodbye to the Holy Mountain, real life awaits us.” 

Através desta brusca conclusão do filme, Jodorowsky revela todo o mecanismo do filme: a própria maquina do cinema. Surge a equipa, microfones, projectores e reflectores. Tudo nos é revelado.

Este olhar metacinematográfico e reflexivo sobre o cinema em si pode ser considerado como a última camada de identidade e de significado do filme, dando-lhe uma inteligência própria que o torna consciente dos seus próprios erros e falhas. É normal que não se consiga atingir a imortalidade ao descobrir a montanha sagrada. Pode parecer um pouco pessimista à primeira vista, mas para mim é a mensagem mais optimista e o melhor final que Jodorowsky poderia arranjar para o filme. Pois as ultimas frases são-nos ditas directamente e são dignas de um guru espiritual. Não interessa a ficção, nem os desejos fúteis mas só a realidade e a forma como a vivemos. No entanto a única forma possível para criar esse efeito é através de um filme.

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