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The Newsroom (2012) – Retrospetiva das temporadas 1 e 2

Inteligente, carismática, uma dose saudável de sarcasmo e sentido de humor refinado, sem esquecer um dos assuntos mais pertinentes da atualidade – assim é The Newsroom.

Aaron Sorkin, que já deu provas de competência ao esmiuçar a política norte-americana em Os Homens do Presidente, presenteia-nos com uma série que mostra os meandros do jornalismo: o frenesim dos bastidores, agendas escondidas, pressão capitalista, questões morais e princípios conflitantes.

The Newsroom segue os bastidores do noticiário News Night, a partir do ano 2010. Enquanto o mundo acompanha, entre outros cabeçalhos marcantes, o início da Primavera Árabe, a equipa vive a sua própria revolução, recusando ceder às pressões capitalistas e comerciais dos gestores do canal, procurando resgatar os princípios originais do jornalismo e não tratar os espetadores como meros indicadores na tabela de audiências.

Esta é uma das poucas séries que nos dá provas de excelência logo nos primeiros minutos. A primeira cena do primeiro episódio, o despoletar desta revolução informativa, recebe um 20/20 em pertinência, inteligência e até intensidade dramática. Will McAvoy, um pivot experiente e rendido ao circo que o rodeia, permanece apático durante o que devia ser um aceso debate entre três opinion-makers populares. Enquanto os colegas discutem numa espiral sem fim nem propósito de insultos e ironias, McAvoy exibe aquele sorriso educado, quase pateta, de quem foi convidado para jantar e tem receio de dizer que não gosta da comida.

Mas tudo o que é posto sob pressão acaba por estalar.

Logo ali, naquela resposta que foi forçado a dar, McAvoy e The Newsroom conquistaram a atenção de milhares de espectadores. Fomos cativados com a promessa de um maravilhoso mundo novo e iluminado, o fim da caverna e uma nova era de informação, de jornalistas que não nos têm por tolos e nos dão acesso total à verdade, à educação, ao enriquecimento.

A utopia criada no ecrã pode estar longe da realidade mas The Newsroom não nos falhou ao longo destas duas temporadas.

O segredo está certamente na mestria com que Sorkin e a restante equipa de guionistas conseguem entrançar ficção e realidade. Situando a série pouco mais de ano e meio antes da sua estreia, Sorkin reescreve o passado, dando-nos um gostinho – muito apreciado – de um noticiário competente e que respeite o espectador.

Mas nem tudo são críticas. Ao repescar cabeçalhos marcantes como o derrame na plataforma petrolífera da BP, as revoluções no Norte de África, a morte de Osama bin Laden, ou o caso ‘Wikileaks’, Sorkin não só expõe os erros cometidos pelos media como também salienta o quão difícil é o seu trabalho. Ao vermos como as notícias são – ou deveriam ser – feitas, os obstáculos enfrentados para proporcionar a informação mais pertinente, fidedigna e atual (desde decidir o que é ou não notícia, permanecer objetivo, a verificação de factos, a confiança absoluta nas fontes, e ainda o perigo físico em situações prementes) ganhamos um novo apreço pela classe jornalista e pelos que aqui a representam.

É refrescante ver inteligência plausível no ecrã em vez daquele tipo que soluciona equações em menos de 30 segundos, hackers que martelam teclados, ou detetives que analisam cenas de crimes como cyborgs ou os donos orgulhosos de um Google Glass. Em The Newsroom, as personagens são dedutivas e sarcásticas, inteligentes mas plausíveis, com falhas e problemas comuns. Estas pessoas, que em nada diferem de qualquer anónimo, mas que se desafiam a ser e fazer melhor, inspiram-nos a ser menos passivos, mais críticos e exigentes com os outros e connosco. Os diálogos e as interações são enérgicos e fluídos, cativantes e estimuladores. Estes jornalistas têm o carisma de super-heróis inconvencionais e, mesmo que não se tenha qualquer anseio em fazer parte do universo dos media, quem no final do episódio disser que não tem um bichinho de ambição a revirar-se dentro de si, ansioso por viver e alcançar algo, está certamente a mentir.

Jeff Daniels é o mal-humorado mas bem-intencionado Will McAvoy, um solitário inseguro que luta com os princípios profissionais e uma dependência excessiva do apreço da audiência. De certa forma, a luta interna de Will é simbólica do estado atual do jornalismo: a questão não é que não existam profissionais competentes, mas sim que estes se deixam extinguir silenciosamente perante exigências de popularidade.

Por outro lado, Emily Mortimer e John Gallagher Jr., a peculiar MacKenzie e o fiel Jim Harper, são os recém-chegados que propõe a revolução; mentora e discípulo, depressa espalham a cumplicidade que os une e a paixão que partilham pelo jornalismo à restante equipa.

Ao lado de Alison Pill, Dev Patel, a excecional Olivia Munn, Chris Messina e os veteranos Sam Waterson e Jane Fonda, são todos excelentes motivos para acompanhar a série. No entanto, o ator e a personagem que melhor descrevem e caracterizam The Newsroom têm que ser Thomas Sadoski e o seu Don Keefer.

A evolução de Don tem também um simbolismo muito forte com a realidade e, talvez, as verdadeiras intenções de Sorkin. Começa por ser o realista, um produtor que não cede lugar a moralismos quando a questão é fazer valer o salário e angariar audiências; é o tipo de pessoa sem escrúpulos para quem o mundo é uma grande mescla de cinzentos, onde governam vantagens e desvantagens em vez de certos e errados – uma representação muito fiel da ideia que fazemos dos jornalistas. Porém, e ainda que a ruga no meio da testa não desapareça por completo e o produtor continue a ser um cético e oportunista, entre a 1ª e 2ª temporada, Don passa de um dos principais críticos do idealismo encetado por MacKenzie para um dos seus apoiantes mais ferozes.

O propósito da revolução foi alcançado: as mentalidades foram mudadas e o apoio dos adversários foi conquistado. Haverá vitória maior que esta?

Agora, trata-se de fazer a colheita e descobrir se os frutos são bons ou têm bicho. Esperamos pela terceira – e, aparentemente, última – temporada para descobrir se esta utopia pode ser bem-sucedida ou se está destinada a um aniquilamento brutal.

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