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Odisseia (2013)

Odisseia – uma verdadeira epopeia televisiva que narra a mitificação de dois heróis lusitanos e de certo um dos melhores programas alguma vez fabricados nesta ilustre praia lusitana.

“Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.”    

Luís Vaz de Camões

Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington, dois actores, interpretando-se a si próprios e simultaneamente uma caricatura, para fugirem aos seus dramas pessoais embarcam na jornada das suas vidas em “Calypso”, a distinta autocaravana.

O programa onde o real se funde com o fictício e o backstage não é nada mais que um segundo plano que deita por terra a “quarta parede” – imensamente estimada pela televisão portuguesa. Uma fantástica série meta-humorística e também meta-meta-humorística (uma vez que visa também a uma desconstrução do meta-humor, ou seja uma espécie de matrioshka humorística) que evita uma linha narrativa dita “normal” e recusa deixar o telespectador do lado de fora da equação. Um projeto arrojado que pretende a transgressão dos tabus televisivos e a desmontagem da arte que é fazer ficção e que por isso dificilmente irá gerar algum consenso.

Odisseia alia a “javardice” às súbtis – ou não – referências culturais e cinematográficas como “Hable con ella” de Almodovar, “Trois couleurs” de Krzysztof Kieslowski,a cena final  de “Paris, Texas” com Harry Dean Stanton, o trabalho do Ricky Gervais, “Apocalypse Now”, ficando por aqui uma vez que a lista completa seria muito extensa.

Tiago Guedes – realizador da série – aliado aos dois actores mencionados (as três parcas)  souberam ver, no humor, uma forma rica de reunir as situações mais díspares como a amizade, o amor, o suicídio e a depressão.

Na sua viagem não faltam personagens bizarras. O ilustre Nuno Lopes, Rita Blanco, Balhelhas… Importante será também referir a incursão dos nossos heróis pelo festival Boom onde se vive o extremo, onde reina a alienação e onde as sereias desviam os nossos Ulisses para marés desconhecidas.

Não faria sentido continuar este texto sem fazer uma menção extremamente honrosa ao Oráculo Miguel Borges, que demonstra plasticidade, beleza e exuberância nas suas palavras proféticas.

No desfecho da sua viagem assomam a um belíssimo prado alentejano, onde a sua viagem vai ser brindada. N’Os Lusíadas, Tethys recompensa Gama com conhecimento apresentando-lhe a “Máquina do Mundo”. Em Odisseia, dá-se a evocação do génio e guru António Variações que presenteia aos nossos heróis com laca L’oreal e poesia. Como já dizia o nosso Nobel da literatura – “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam” – então Bruno e Gonçalo chegam também. Resolvem os seus conflitos interiores e mostram-se preparados para regressarem às suas vidas reais que são, por si só, Odisseias também.

As personagens despedem-se de nós ao som de Camané e o programa prova-nos, uma última vez, a sua hábil técnica de fluir entre o cómico e o dramático e austero. Odisseia é drama e humor numa centrifugadora.

O número sete é com certeza o mais presente em toda a filosofia e literatura desde os imemoriais até aos nossos dias. O número sete é sagrado, perfeito e poderoso, afirmou Pitágoras. Seguindo este fio condutor só faz sentido que Odisseia tenha oito, sendo abruptamente cancelada durante as gravações do ““making of”” (aspas duplas propositadas) do penúltimo episódio.

A comédia é indissociável do serviço público e em Odisseia dá-se o grito pelos artistas do cinema, do teatro, e da televisão portuguesa que não desistem da sua criação mesmo quando confrontados com baixos orçamentos, cancelamentos inesperados, falta de oportunidade, condições miseráveis e acima de tudo falta de interesse cultural. A esses saudamos. Luta sempre! “Como é que uma pessoa pode preferir comer pão com pão quando pode comer pão com chouriço?!” – Nuno Lopes

“Civilizations die from suicide, not by murder.”

― Arnold Joseph Toynbee

  • André Peixoto

    Muitos Parabéns, João. Gostei muito do texto. A série é sem dúvida uma pérola e algo incontornável no panorama. A subtileza com que conseguem ligar o sagrado e o profano o prosaico com o divino é notável. Aquele Abraço. André Peixoto

    • João Peixoto

      Muito obrigado! Espero que continues a apreciar e que sejas fã assíduo do site!
      Abraço

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