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The Punk Singer (2013) – Indielisboa 2014

PJ Harvey, Björk, Patti Smith, Kim Gordon, Siouxsie Sioux. Tudo mulheres com “M” grande, artistas consagradas e imprevisíveis, que partilham uma origem barulhenta: o punk-rock. Porquê? Primeiro, é preciso que nos oiçam. E um bom berro, com uma guitarra bem distorcida, é sempre uma opção.

“SOU O TEU PIOR PESADELO PORQUE NÃO ME VOU CALAR!!!”, são as palavras iniciais de Kathleen Hanna. Antes sequer de formar a banda que a tornaria num mito, as Bikini Kill, Kathleen fazia-se ouvir pelo spoken word e a fotografia artística. O seu tema predileto era o feminismo, um movimento aparentemente morto que precisava de sangue novo – e com mulheres destas havia uma hipótese.

Numa sala já mais composta que o habitual, o IndieLisboa deu-nos a ver o documentário de Sini Anderson sobre a vida e obra de Kathleen Hanna. Muita gente perguntar-se-á “quem?”, e felizmente isso não é um impedimento para se gostar do filme. The Punk Singer explora a subcultura punk e a ideologia feminista do ponto de vista de uma banda que influenciou uma geração, contactou com titãs como Kurt Cobain e abriu as portas para um diálogo entre a distorção do punk e a ativismo social feminista.

As Bikini Kill influenciaram principalmente um mercado de raparigas jovens desesperadas por uma voz. A banda foi uma das principais fundadoras do “Riot Grrrl”, um movimento de artistas sediado em Washington D.C., juntos em prol de causas feministas. Estas bandas tocavam e berravam por direitos igualitários, e alertavam para questões (infelizmente ainda presentes) como a violação e o abuso doméstico. As Riot Grrrl’s eram toda uma subcultura estruturada, com concertos, revistas auto-subsidiadas, reuniões, palestras e voluntariados.

A banda de Kathleen fugiu sempre da cultura mainstream, com medo de um jornalismo fácil que destilava a mensagem feminista a uma moda adolescente. E apesar de nunca terem sido capa da Rolling Stone, amigaram (e tocaram) com bandas como Nirvana, Sonic Youth e Joan Jett. Aliás, uma das músicas mais perfeitas dos Sonic Youth – uma trip de pseudo-pop dissonante com spoken word – conta com a presença de Kathleen no vídeo oficial. É a miúda irrequieta dos totós:

A segunda metade do documentário é sinceramente menos interessante em termos histórico-musicais, já que segue a fase electrónica de Kathleen, as suas crises pessoais, e a sua luta contra a doença de Lyme. Este aspecto mais privado da artista irá apelar muito mais aos fãs da banda, e menos ao geek musical que vive em todos nós. No fim, o filme consegue ser empolgante, até inspirador, pela irreverência artística que vemos na jovem Kathleen, e por documentar um movimento musical pouco conhecido.

O punk-rock é muitas vezes musicalmente previsível e repetitivo, e para muitos o seu atrativo é mais a expressão pessoal, social e política que acompanha as notas, que as notas em si (que não costumam ser muitas). É a atitude que nos prende – e que pode ser tão radical, conceptual e corajosa como uma performance art. Há momentos no documentário, principalmente na primeira metade, em que parece que a única diferença entre uma Kathleen e uma Marina Abramović são as guitarras mal tocadas da primeira. Quando cheguei a casa meti um Adágio em Si Menor de Mozart, para limpar os ouvidos. Se ser punk (também) é fazer o que se quer, estou num bom caminho.

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