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Resurrection (2013) – 1ª temporada

O jantar está pronto. Desces as escadas para te juntares ao resto da família, que já está à tua espera. Sentas-te ao lado do teu irmão, o teu pai à direita, na cabeceira da mesa, a mãe à esquerda, na margem oposta, e a tua avó em frente com aquele seu sorriso indulgente e afetuoso. Tudo normal, certo?

Errado. A tua avó morreu há 7 anos. O funeral dela foi o primeiro a que alguma vez assististe, nunca choraste tanto como naquele dia. E no entanto, ela está aqui à tua frente, como se nada tivesse passado. Sorri-te e pergunta pelo teu dia enquanto te passa a salada e faz algum comentário sarcástico sobre o tempero da tua mãe; sentes-lhe o calor do corpo quando recebes a saladeira, ouves a voz dela… Tudo segue um ritmo normal e quotidiano, como se o ataque cardíaco que levou a família inteira ao desespero tivesse sido uma simples visita de rotina ao hospital.

Esta é a premissa de Les Revenants. Não, espera… Resurrection, esta série chama-se Resurrection.

 Baseando-se no romance de Jason Mott, The Returned, Aaron Zelman traz-nos mais uma história de mortos que não estão bem mortos. Não são exatamente zombies famintos e semidecompostos, mas também não é algo que possamos chamar original. Muito à semelhança do filme e série franceses Les Revenants, Resurrection acompanha uma pequena cidade rural que é virada do avesso quando os ente queridos da população começam a retornar do além como quem volta da pausa para o café, ou acorda de uma power nap a meio da tarde, como se nada de extraordinário tivesse acontecido.

Esse parece ser, aliás, o mote da série: nada acontece. A primeira temporada está perto do fim e no entanto todo o avanço que se deu na história pode ser condensado em 3 ou 4 episódios de 20 minutos cada. Resurrection é uma promessa por cumprir, uma longa e morosa (adivinha-se eterna) espera por algo que não parece estar realmente definido.

Apresenta-nos Marty Bellamy (Omar Epps), um agente de imigração que é recrutado para acompanhar o caso de um menino americano encontrado a vaguear sozinho pela China rural. O caso revela-se ainda mais bizarro quando a criança de oito anos diz ser Jacob Langston, um rapaz que morreu afogado no Missouri, nos EUA, há mais de 30 anos.

Até aqui tudo bem. A história, ainda que não seja nada de novo, não deixa de ser interessante, afinal é uma criança ressuscitada e adorável que simultaneamente inspira compaixão e temor, um sonho enternecedor para quem já perdeu alguém querido e uma perspetiva diferente e refrescante quando ultimamente só se ouve falar de zombies e outros clichés do sobrenatural.

A desilusão começa a manifestar-se quando conhecemos a pacata e entediante cidade de Arcadia, Missouri, e os seus insípidos habitantes. É quase irónico que uma cidade tão parada e personagens tão sensaboronas tenham sido destinadas para um acontecimento deste calibre. Não se coaduna e, consequentemente, afeta negativamente o interesse do público por Resurrection.

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Aqui está Arcadia.

O casal Langston (Kurtwood Smith e Frances Fisher) e o pequeno retornado Jacob (Landon Gimenez) são provavelmente o único núcleo que desperta algum interesse, levando-nos a refletir sobre as verdadeiras implicações de uma fantasia que muitos partilham. No entanto, mesmo esta família simpática acaba por se tornar aborrecida quando percebemos que mais de metade dos episódios são a mesma cassete presa no repeat.

Semelhantes a esta, há muitas outras subnarrativas com enorme potencial para cativar a nossa atenção, que simplesmente ficam aquém das expetativas.

Fred Langston (Matt Craven) devia ser o viúvo atormentado pelos erros do passado, o xerife autoritário que exala confiança, ao mesmo tempo que esconde uma batalha com o álcool. Em vez disso é só um tipo com olhar apático que nem quando está bêbedo consegue ser interessante.

O agente Bellamy e a doutora Maggie Langston, o suposto par romântico que deveria transpirar tensão sexual, ou pelo menos uma conexão genuína, são torturantes. Ver Omar Epps e Devin Kelley a tentar fingir química romântica é como ver uma criança ser forçada a comer favas. Sempre que se encontram num ambiente ou conversa mais íntimos comportam-se como se nos estivessem a fazer um favor que lhes exige tremendo esforço físico e psicológico.

A lista continuaria até nos apercebermos que já cobrimos todas as personagens de Resurrection, desde as principais até à mais dispensável.Falta-lhes individualidade, carácter; apresentam-se como uma grande massa informe de comportamento generalizado, um rebanho instável e radical que ora é demasiado crítico, ora excessivamente benévolo no que diz respeito à ressurreição. As personagens perdem-se, diluem-se na massa – em especial Marty que, supõe-se, seja o protagonista mas quase nos esquecemos que existe, quanto mais que tenha alguma relevância.

Já à série em si, falta-lhe decisão e ação. Ao longo da temporada, a impressão que passa para este lado do ecrã é de grande insegurança. Resurrection é o miúdo tímido do recreio que quer muito ser popular por isso começa a gabar-se das mil e uma aventuras em que, supostamente, já participou. No entanto, o fim do ano letivo está quase aí e evidências de grandiosidade há muito poucas.

Resurrection tem bastante potencial. A dúvida que se instala é sobre a capacidade dos camiõezinhos dos produtores e argumentistas para lidar com esse potencial.

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