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Vida Activa (2013)

Existem muitas maneiras de pintar o mesmo quadro. Aliás se metessem Picasso a pintar duas vezes o Guernica, o resultado seria substancialmente diferente. Tudo depende da interpretação da realidade e essa varia de pessoa para pessoa, de momento para momento.

Susana Nobre com o seu documentário Vida Activa – que é também o nome dado pelo instituto de emprego e formação profissional (IEFP) ao seu programa de “melhoramento de empregabilidade do candidato” – procura retratar uma realidade – o desemprego – vista pelos seus olhos e contada por aqueles que o sofrem na pele. No entanto, esta “abordagem ensaísta” (como é descrito na sua sinopse) vai para além dos meandros do desemprego e conta-nos várias histórias.

Para isso, a sua experiência nas Novas Oportunidades –  Susana Nobre trabalhou como profissional de reconhecimento e validação de competências no Centro Novas Oportunidades em Alverca, entre 2006 e 2011 – mostrou-se fulcral. Isto porque o documentário é maioritariamente contado através das entrevistas que Susana Nobre foi fazendo ao longo dos anos.

O que se começa imediatamente por notar é que o documentário foi criado num regime exploratório. Através dos relatos na primeira pessoa dos diversos candidatos, vai-se formando uma ideia, que se nota trabalhada. Isto de uma forma contemplativa, sem adicionar críticas ideológicas, ou procurar encontrar culpados. Não. O que se pretende aqui é dar a voz a um estrato social que se confunde erroneamente: “Os desempregados”, “Os que não têm estudos”. A tendência seria pôr tudo no mesmo “monte”, tirando-lhes a voz que os torna únicos. Cada um desses desempregados, ou em situação precária, tem histórias de vida bem distintas e contrastantes. Criando-se assim uma paisagem quebradiça entre, por exemplo, a senhora do norte que expressava uma imensa felicidade no relato, apesar da dureza da sua vida, e o serralheiro que dizia que o país e o mundo não lhe dava esperança.

As subtilezas nos olhares, nos gestos, nos relatos eram o espelho das diferenças. Talvez os testemunhos mais interessantes tenham sido aqueles dados pelas pessoas que atravessaram dois contextos laborais bem diferentes. Aqueles que, na casa dos 50 e 60 anos, se diziam “Novos para se reformarem e velhos para trabalharem”, tendo passado por dois contratos psicológicos bem diferentes. Se no início da sua carreira laboral a segurança e o emprego para a vida lhes era assegurado; depararam-se agora com as restruturações e a mão-de-obra mais barata – “Os Chineses” como dizia uma senhora – vendo-se numa situação de desemprego, que não parece ter retorno.

Aqui, talvez o ponto menos positivo do documentário seja a forma como as entrevistas foram escolhidas. Umas têm nitidamente mais interesse do que outras, tempos de antena diferentes e, mais para o fim, são contadas de forma diferente. Se é verdade que, quando Susana intercala os planos mais estáticos da díade que estabelece com os entrevistados, filmando noutros espaços, consegue dinamizar um pouco a obra. Por outro lado, fica-se sempre com a sensação que algumas das histórias mereciam outro tratamento. Talvez o problema aqui seja o tempo do documentário e nesse sentido, o que poderia ganhar em substância, poderia perder em dinamismo.

Depois, já na reta final da obra, acompanhamos o fim de um ciclo – com o cancelamento do programa. Nesta parte, ainda que não haja uma crítica concreta a esta política, meramente estatística, existe uma alfinetada discreta na volatilidade e incapacidade de dar seguimento ao que se começou.

Certo é que apesar de uma realidade aparentemente local – os alunos das Novas Oportunidades – existe um seguimento lógico no documentário, que começa de forma tímida, tornando-se progressivamente mais incisivo, acabando por ser um retrato mais geral e representativo do que se passa atualmente no nosso país e do que se tem passado nos últimos 40 anos. Devido ao formato do documentário, não é sempre discernível o lugar final onde Susana nos quer deixar, mas a verdade é que nos leva a “passear” por muitos.

Vida Activa tem estreia marcada nos cinemas dia 8 de maio no Cinema City de Alvalade.

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